XVI Parada LGBT do RJ – im(pressões)

Por Luis Eduardo de Melo

Quem esteve presente na XVI Parada LGBT do RJ em Copacabana no dia 09/10/11 sentiu algo diferente no ar.

Não era maresia, pois o mar estava bem tranquilo na Orla. Nem era o cheiro de mijo nas ruas, pois até que exerceu-se uma considerável educação do público que utilizou os banheiros químicos ou restaurantes que autorizavam o uso do banheiro nos estabelecimentos.

Havia pessoas de todos os lugares, etnias, sexualidades e até países… Era 1,5 milhão de pessoas, segundo estimativa dos organizadores. Não houve incidentes graves, e o caso mais notório de furtos no evento foi o de assalto a ônibus depois do final da parada, rapidamente coagida pela PM, noticiada pela reportagem da Band. Veja aqui.

Por sinal, com um número visível de policiais militares e guardas municipais que atuavam na segurança , foi uma das poucas vezes em que a Parada Gay do RJ foi tão bem policiada. Tudo muito perfeito.

Familiares com seus filhos brincando nas calçadas e dando tchau para a homofobia, moradores que desciam de seus apartamentos para fazer coro e pedir paz e tolerância. Drags, trans, heteros, gays masculinos e femininos, bissexuais, e até para quem quisesse, união homoafetiva concretizada em um dos trios criados especificamente para a aplicação da ADI 4277 julgada no STF em maio deste ano, em que reconhece a união estável homoafetiva equiparada à união heteroafetiva, com mesmos direitos e deveres.

Mas o que ficou estranho mesmo foram as ausências de políticos que apóiam a causa LGBT.

Somente 3 estiveram presentes: Jean Wyllys (PSOL – RJ),  Jandira Feghali (PC do B) e Janira Rocha (PSOL – RJ).

Faltaram desta edição políticos que sempre marcavam presença, como Carlos Minc (PT-RJ), que justificou sua ausência pela primeira vez em 12 anos por estar de férias na França.

Sérgio Cabral (PMDB – RJ), governador do Rio, que enviou como seu representando Cláudio Nascimento, Coordenador do SuperDir-SEASDH e fundador da Parada Gay do RJ (obs: nunca Cabral precisou justificar sua ausência, pois Cláudio já está na Coordenadoria há pelo menos 4 anos), e Eduardo Paes (PMDB – RJ), prefeito da cidade do RJ, sendo representado pelo coordenador seu novo órgão de combate à homofobia no RJ, CEDS-RIO, Carlos Tufvesson.

Com o tema “Somos todos iguais perante a paz”, a XVI Parada LGBT do Rio, que se propunha “pressionar o Congresso Nacional para a criminalização da homofobia”, segundo Julio Moreira, coordenador da ONG Grupo Arco Íris, organizadora do evento, em entrevista ao portal IG teve um tom… apático.

Os trios elétricos, 15 no total, pareciam carros de som para uma multidão não muito preocupada com a proposta política central, não deixando de ser um fenômeno menor a presença de LGBTs nas ruas, talvez sendo a principal importância de uma parada gay: visibilidade LGBT. Mas não a única, como por exemplo, em destaque o carro “Contra a Intolerância Religiosa”, onde a Umbanda foi o tema e trilha sonora do carro, em uma semana em que sua história foi atacada em um ato de intolerância ao ser demolido o primeiro terreiro de Umbanda do país, em São Gonçalo, praça de Aparecida Panisset (PDT-RJ), prefeita da região e evangélica.

A principal idéia deste carro era mostrar, sobretudo, que gays não tem problema algum com nenhuma religião. Há de se ressaltar que todas as religiões pregam a tolerância e a não discriminação, porém existem dissidências que preferem ignorar essa norma básica de respeito ao próximo e tentam impor suas crenças particulares, usando sustentação em interpretações fundamentalistas  sobre o coletivo.

Gays respeitam todas e quaisquer religiões, só não toleramos a falta de civilidade de alguns de seus fanáticos , assim como não toleramos qualquer desrespeito com nenhuma religião. Exigimos respeito e abraçamos nossos iguais também discriminados. Queremos igualdade e respeito para todos!

Dimensionar precisamente o real motivo para tais ausências políticos, desconfiamos. Mas algo configura que as eleições de 2012 influenciaram a ausência de muitos outros políticos com medo dos votos, diversos os motivos obscuros (ou não tão obscuros assim), o que não parece exagero tal  hipótese. Afinal, questões LGBT como vergonha ou moeda de troca é um fato que assola nossa política desde 2010. Fiquemos de olho, LGBTs. Fiquemos de olho, Rio.

Luis Eduardo de Melo, filósofo pela UFRJ, gay, ativista LGBT HoJE.

(colaboração de Erika Maria, funcionária pública, bissexual, ativista LGBT HoJe)