Por Emmanuel Rodrigues

Libertações, justiças, alegrias e, sobretudo, esperança!

Era a primeira vez que casais se uniam na história da humanidade?

Não, não mesmo! Era o primeiro casamento gay, a primeira união, a primeira noite juntos? Não, não era também…

Casamento gay coletivo SPUm casamento dito inclusivo num mundo que exclui: uma leitura acolhedora da Palavra Sagrada que tanto fez, que tanto foi usada contra os seres que amam, que querem ter direitos, que cantam tanto suas Gagas e Beyoncés, Laupers e, não dá pra esquecer, Madonnas; pessoas que choram e que trabalham e que tem famílias e que tem namorados e namoradas.

As palavras divinas do Dário, diácono, lembravam que o Deus cristão é acolhida, é amor, acima de tudo e sobretudo; lembrou que o Deus cristão é o dos cobradores de impostos e das prostitutas, que preceder-nos-ão no Reino do Céu; lembrou que esse mesmo Reino é como uma grande árvore, que cresceu e hoje dá acolhida aos pássaros de todo o mundo. Lembrou que há um Deus que ama.

Que há o Senhor do olhar bonito, vibrante, aquecendo o coração quando, penetrante, vem para perto de si, dizendo que há uma nova chance.

Aos não-crentes, a palavra lembrou a justiça que corre e ocorre. Lembrou dos grandes ícones da humanidade, de Martin Luther King a Gandhi, de ícones que lutaram contra a repressão religiosa da massa dominante. Lembrou de ícones que não eram brancos, burgueses, cristãos, homens, heterossexuais e, assim, vítimas de toda sorte de opressão… Era um casamento, uma verdadeira cerimônia inclusiva, unindo o sagrado e o dito profano que, visto sob certo ponto de vista teológico, é tão sagrado quanto tudo, uma vez que foi criado pelo grande Senhor: para uns, Deus, outros, Alá, Energias, Arquiteto do Universo, Deuses Clássicos da Mitologia, Entidades da Umbanda, Forças da Natureza Pura e Simples. E a justiça estava ali, em presença real, unindo todos num só coração, num só ser e esperança.

Esperança? Essa brilhava gostosa verde nos olhos castanhos, negros, cinzas, azuis, em toda sorte de gente, a cada toque da orquestra ou a cada passo e palavra de cada um dos celebrantes. Era a esperança de um mundo melhor, de justiça, de amor, de paz.

Eu estava lá, de mãos dadas e abraçado com um outro rapaz, um ser mais que especial, que me faz sentir seguro e completo. Estava com pessoas que tanto admiro e amo, sem dúvidas amo. Foi gostoso assistir o casamento assim: um nordestino, em São Paulo, estava quente, e não quente de socos que levei ou de vergonha por amar diferente, por estar com uma pulseira do arco-íris, ostentada com o maior orgulho no meu pulso, gritando, a poucos dias da comemoração de Stonewall: eu tenho orgulho de ser Gay!

Não gay, mas Gay, letra maiúscula, talvez garrafais: GAY! E tenho orgulho de poder amar e não ter vergonha!

Era noite de sábado e, enquanto o mundo acontecia do lado de fora, um mundo se abria dentro de um prédio no coração paulista. Agressões? Não com metralhadoras ou com chamas e tochas fumegantes, socos ou armas de artilharia pesada. A grande agressão eram os beijos trocados e a alegria contagiante de um público aberto e feliz, sobretudo feliz! E é um povo que sabe o quão perigoso é ser feliz e livre nos dias de hoje. Liberdade é perigo! Enquanto o mundo agride os gays até a morte, estes lhe dá vida, com cores e com sorrisos abertos. É! É isso, sorriso aberto, liberdade e, sobretudo, vontade de vida! Plenitude da existência!

…e muito amor…

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. (I João 4, 8)”

Emmanuel Rodrigues 28 de Junho de 2011, memória de Stonewall Dia do orgulho Gay!

Vejam dois vídeos da cerimônia marcada pelo reconhecimento, inclusive religioso.