Por Erika Souza

Quinta feira passada entrou pra história da teledramaturgia brasileira porque o SBT, rede de televisão do Silvio Santos, transmitiu o tão esperado beijo gay. Foi entre duas mulheres, bastante caloroso e intimo. Tudo muito próximo à realidade [tá, foi meio dramático demais, mas isso é uma novela!]. Teve paixão e ceninha de declaração amorosa antes do beijo, àquela coisa bem melosa e brega do estilo de novela mexicana que arranca suspiros do público. Tudo o que já estamos acustumados a ver entre casais heterossexuais na telinha.

Ninguém poderia imaginar que a rede do dono do Baú pudesse ter essa iniciativa. Afinal de contas, a SBT não é exatamente conhecida por ser uma rede inovadora e contestadora. Muito menos por ser uma produtora de novelas de grande calibre. Mas, talvez exatamente por isso, assumiu este papel.

O beijo gay foi tratado como algo polêmico, não apenas pelo SBT, mas por todas as redes. Antes do capitulo onde o tal beijo apareceria na novela “Amor e revolução”, a cena foi muito divulgada e debatida na internet, na padaria, nos salões de beleza, nos programas de fofoca da tarde…. Ninguém queria ter essa ousadia. Ninguém queria contrariar o tal público conservador brasileiro.

 Amor e Revolução: O Beijo entre Marcela

 (Luciana Vendramini) e Mariana (Giselle Tigre)

Minutos antes da novela, o Programa do Ratinho, realizou uma enquete: “Voce concorda com o beijo gay na TV?”. O resultado mais que esperado: 52% não concordavam. Oras queridos leitores, Ratinho já cansou de falar e repitir que é contra a homossexualidade e amigo intimo de vários pastores conservadores. A maior parte das suas atrações (que registram índices pífios de audiência quando não abordam temas da realidade social, exemplo: Casos de DNA) é voltada para o púbico conservador. Você realmente esperava que o público que assiste ao programa dele fosse concordar com beijo gay na televisão?Achei que 52% foi bem pouco [o que mostra que até mesmo o publico dele está mudando], já que a audiência progressista e liberal provavelmente passa longe desse programa.

O fato é o seguinte: o SBT vem perdendo audiência, não é segredo pra ninguem que tanto a rede quanto o dono estão passando por uma crise financeira. O beijo gay foi uma tentativa “apelativa” para ganhar IBOPE? Queridos, tentativa desesperada e apelativa é um definição muito errada. A verdade é que o SBT deu uma guinada para ganhar audiência, já que o conservadorismo de suas atrações não acompanha a realidade social, portanto eram necessárias mudanças. A sociedade mudou e quer ver a retratação desta mudança.

Acompanhe o raciocinio: Infelizmente, as atrações da televisão de uma forma geral são conformistas e conservadoras, ou seja, tendem a manter e conservar determinados valores sociais, a exemplo do repudio a homossexualidade ou exibição das mulheres como objeto sexual ou ainda a idolatria de comportamentos machistas. Porém, a sociedade muda – e não é graças a este tipo de programa. São necessárias transformações para incorporar os novos padrões sociais e agradar a audiência, já que esta esperar ver na telinha a realidade que vivência. Lógicamente existe uma parte do público que não acompanha tais mudanças e que não ficará satisfeita com a trasmissão do beijo gay, por exemplo. Mas a tendência é de mudança e de revolução e não de conservar e perpetuar. O publico quer ver seu cotidiano contemporâneo na TV e não a realidade de 50 anos atrás.

E os números da audiência com relação ao que pode ser classificado como programas revolucionários ou progressistas, não me deixão mentir. Peguei o índice de audiência dos centésimos capítulos das novelas globais dos últimos anos e fiz uma análise que provavelmente a rede globo ainda não tem idéia:

Novela

Pontuação de audiência dos 100 capítulos de cada

1-Senhora do destino

54 pontos

2-Belissima

52 pontos

3-Mulheres apaixonadas

50 pontos

4-América

50 pontos

5-Paginas da vida

49 pontos

6-Paraíso tropical

47 pontos

7-O clone

47 pontos

8-Celebridade

46 pontos

9-Esperança

45 pontos

10-Duas caras

42 pontos

11-Laços de familia

42 pontos

12-A favorita

41 pontos

13-Insensato coração

40 pontos

14-Caminho das indias

39 pontos

15-Passione

38 pontos

16-Viver a vida

32 pontos

Fonte dos dados: RD1

Das 16 novelas mais recentes oito abordaram a temática LGBT de alguma forma. Seja com depoimentos no fim da novela, seja com personagens gays sem necessariamente abordar a homofobia, adoção ou união homoafetiva, ou com personagens, mas então abordando estes casos de forma objetiva. E vejam só: Das seis novelas que mais tiveram audiência cinco foram novelas que versavam sobre a temática LGBT. Mas não foram quaisquer novelas:

 Senhora do destino (2004/05): A novela líder na audiência contou com Eleonora e Jennifer, interpretadas por Mila Cristie e Barbara Borges respectivamente. Viveram todas as etapas que um casal gay pode passar na vida real.

 Desde a descoberta do amor por uma pessoa do mesmo sexo, passando pela auto-aceitação, pelas dificuldades de aceitação da família, a decisão de morarem juntas, culminando em casamento e adoção de um menino. O casal levantou todos os temas e foi muito bem aceito. Teve ceninha romântica na cama, um semi- beijo [daqueles que a gente não sabe se foi no queixo ou na boca] e trocas de carinho e afeto entre as moças. Final feliz digno!

Mulheres apaixonadas (2003): A terceira colocada contava a história de Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Alinne Moraes). Pela primeira vez a homossexualidade na adolescência foi abordada. A discriminação da família e de alguns amigos de escola também. As mocinhas foram corajosas e terminaram a novela juntas, contra tudo e contra todos.

 Teve ceninha de beijo, mas foi durante uma peça onde Rafaela interpretava Romeu e Clara fazia o papel de Julieta. Ou seja, a reprodução de um selinho (muito rápido alias) de um casal heterossexual. De mentirinha não vale, rede globo!

América (2005): A quarta colocada teve o caso mais absurdo e decepcionante. Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), o teve o beijo gravado e seria apresentado no último capítulo da novela, mas a direção da emissora decidiu cortar. Junior já havia passado por tudo na novela, sobretudo a dificuldade de “sair do armário” por ser de uma família tradicional e do interior. A emissora causou a revolta não apenas da comunidade LGBT, mas de boa parte da audiência que simpatizava e muito com o personagem.

Paginas da vida (2006): A quinta colocada contou com Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi) que mais pareciam um casal de comercial de margarina. Estavam mais pra amigos que dividiam um apartamento do que casal. Assim foi até os últimos capítulos da novela, quando finalmente os personagens resolveram adotar uma criança e novamente uma das questões LGBT entrou em pauta.

Os personagens conviviam assim, segundo a emissora, para não perturbar a audiência mais conservadora. Dessa vez, a direção abordou a existência de homossexuais, revelou até a existência da necessidade destes de constituir família, mas optou erroneamente em não abordar o principal fato que reúne uma família: o laço afetivo dos membros. Pessoas que se amam, se beijam. Novamente, nada de beijo.

Paraíso tropical (2007): Rodrigo e Tiago, Sergio Abreu e Carlos Casagrande nesta ordem. Eles eram bem sucedidos, moravam juntos, bonitos. Eram bem aceitos no trabalho, pelos amigos… não tinham defeitos. Também não trocavam afeto, no máximo palavras de carinho, mas nada que fosse contra a audiência conservadora. Eles simplesmente existiram na novela, mais nada.Quem dera todos os homossexuais brasileiros tivessem a vida deles. O ponto positivo das personagens é que com eles houve certa desmistificação do estereótipo gay afeminado. Sim, meus caros. Existe diversidade dentro da diversidade.

 Afinal de contas, não é todo homem hetero que coça as parte intimas e cospe no chão, assim como não é todo gay que anda rebolando e veste rosa.

Coincidentemente, estas cinco novelas foram as novelas que abordaram de forma direta e no caso de Senhora do destino, América e Mulheres apaixonadas, foram os casos que melhor representaram a comunidade LGBT. Elas estão no topo da audiência. São fatos com dados concretos e inegáveis.

A sociedade já não acompanha mais a histórias água-com-açúcar sobre “menino rico que se apaixona por menina pobre e tem que enfrentar a familia e uma ex-namorada louca pra ficar com ela”.  Embora as discriminações, nestes casos, sejam ainda reais, – a exemplo do caso do cantor Ed Mota e dos moradores de Higienópolis –SP- socialmente, este já não é um fato mais aceito e as próprias novelas retratam a recriminação deste tipo de preconceito.

Os homossexuais, ou a existência destes, são um fato e uma realidade desde que o mundo é mundo. O que assistimos na televisão geralmente é um reforço da discriminação, piadas de mau-gosto e esteriótipos pré-formados da realidade gay. Quando finalmente a realidade é abordada, ela é mal representada. Simplesmente não corresponde ao que o público vivencia, ou seja, ao que o público quer ver.

Novamente cai a falácia de que o publico quer ver apenas polêmica na TV. O publico quer ver a realidade. E a desculpa de que o público brasileiro é ainda muito conservador e não gostaria de ver o beijo gay cai por terra. Caso contrário, a audiência da novela “Amor e Revolução” não teria praticamente dobrado com a transmissão do beijo entre Marcela (Luciana Vendramini) e Mariana (Giselle Tigre). A cena do beijo é polêmica? Não. Ela é real. Casais gays se beijam assim como casais heteros compostos pelo menino rico e pela menina pobre. Vamos ver a cena:

 No youtube esse video, mesmo cencurado, teve 125.517 exibições em 24 horas!

É, parece que a rede Globo, não é mais tendência. Graças a Deus.