Por Marcelo Gerald

A Eleição deveria ser resultado de um conjunto de debates, que levaria a população a escolher aquele que julgou ser o melhor candidato para ocupar um cargo, que irá influenciar em suas vidas, em aspecto amplo. Certo? Deveria, pois quem acompanha de fora o que virou a eleição paulistana se pergunta se a cidade não tem atualmente nenhum problema estrutural, tais como saneamento básico, saúde, educação, transporte, aparentemente está tudo uma maravilha, já que ao invés de eleger um prefeito, parece que São Paulo, graças a José Serra, fará plebiscito a favor, ou contra um programa que pretendia combater a homofobia nas escolas.

Nas redes sociais circula esse meme para que Serra pare de usar gays na campanha

Em 2010 foi Marina Silva quem introduziu o tema religião no debate eleitoral, mas foi Serra quem radicalizou e Dilma se mostrou submissa a essa agenda e tem sido até hoje. Em 2012 assistimos a repetição do mesmo na cidade de São Paulo, só que no lugar de Marina tivemos Russomano e desta vez Serra aprimorou o discurso “religioso” e intolerante contra LGBTs, que antes competia com o aborto.

Na campanha presidencial Serra tinha prometido vetar o PLC122, se eleito, desta vez escolheu como tema principal o kit anti-homofobia, o candidato explora o pior do preconceito e da desinformação das massas sobre o tema. O kit foi vetado pela presidenta Dilma depois de forte campanha mentirosa contra o material, na época chegaram a usar o programa de prevenção de DSTs e fotos de crianças se beijando, como sendo parte do kit.

Serra chamou como aliado pra tal empreitada, o pastor Malafaia, que fez carreira e fama perseguindo a causa LGBT, principalmente se posicionando contrário ao PLC122, a campanha contra o projeto que pretende punir a discriminação por orientação sexual foi mentirosa desde a origem,  sobre esse projeto Malafaia conseguiu o que queria, um texto que atendesse a demanda de evangélicos foi  aprovado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado em 2010, mas o pastor  finge em debates que esse novo projeto não existe e continua atacando o original. Sobre o kit anti-homofobia, a mesma estratégia de distorções é usada, o pastor faz campanha alegando que o kit doutrinaria e pregaria a homossexualização da sociedade (sic), numa sociedade com forte apelo sexual na TV aberta chega a ser risível essa afirmação, mas infelizmente foi levada a sério.

Para quem acompanha de fora essa discussão, talvez não entenda o que Malafaia represente para LGBTs. O pastor tem uma longa agenda dedicada SOMENTE contra a causa Gay e em entrevista ao New York Times se autodeclarou  o inimigo número um de ativistas homossexuais no Brasil, portanto não é algo que possa ser relevado por quem defenda Direitos Humanos.

Malafaia costuma usar “metáforas” que podem muito bem ser entendidas como apologia à violência, recentemente em um vídeo disse que era pra igreja cair de pau em gays, agora junto com Serra disse que veio do Rio pra arrebentar Haddad.  Não me lembro de ter visto esse pastor pregando o amor ao próximo, ou tolerância, uma única vez.

A estratégia é digna de fascistas: elege-se um grupo como responsável de todos os males da sociedade, nesse caso os homossexuais e um livro como sendo a verdade pura e absolta, que confirmaria tudo que ele diz sobre esse grupo, mas tudo que contraria suas ações é sistematicamente ignorado nas suas leituras da Bíblia.

Serra errou em 2010 e acabou se tornando o maior cabo eleitoral do PT, muitos que na época anulariam votos acabaram votando em Dilma, o mesmo deve acontecer agora e ao perceber que a campanha intolerante poderia repercutir negativamente tentou se afastar de Malafaia e deixar com que apenas o pastor levasse os créditos, mas a estratégia não deu certo, depois que foi revelada por foto através do jornalista, Renan Truffi,  do portal Terra.

Serra deveria considerar a derrota de Russomano, São Paulo não aceita a submissão a preceitos de uma única religião, a cidade é plural e como eu já disse em outras oportunidades, o voto evangélico é superestimado.

Eu poderia parar aqui, mas isso deixaria espaço pra militância tucana dizer que fui parcial e que Serra foi o que mais fez por LGBTs, então, faço questão de enumerar as ações dele no passado:

1)      Em 2009 Serra distribuiu material quase idêntico ao kit anti-homofobia!

2)      Serra criou a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual do município de SP;

3)      Centro de Combate à Homofobia da PMSP;

4)       Criou o Conselho Municipal de Atenção a Diversidade Sexual;

5)      Ampliou a DECRADI, Delegacias de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância;

6)    Criou a Coordenação Estadual de Politicas Públicas para a Diversidade Sexual e do Comitê Intersecretarial de Defesa da Diversidade Sexual;

7)      Implementou o  Ambulatório de Saude Integral para Travestis e Transexuais;

8)       Decreto estadual do nome social de travestis e transexuais em todos os órgãos públicos do Estado de SP;

9)      Criou o Conselho Estadual LGBT.

Você deve estar se perguntando a essa altura como que um político com tantas ações pró-LGBT pode estar fazendo tamanha campanha eivada de homofobia contra o PLC122 em 2010 e agora contra o “Escola Sem Homofobia”, para ganhar o voto conservador vale tudo, mesmo manchar a sua história. Para quem defende Serra precisa muito mais que o seu passado político para garantir o seu futuro, pois entre um e outro há o presente e nele o que predomina é um discurso homofóbico e bifóbico e que estimula preconceitos sociais bem comuns em nossa sociedade.

Serra não tem o direito sequer de criticar o kit, uma vez que já usou material bem parecido antes. Veja trecho da FOLHA de hoje sobre o material de 2009:

“Destinado aos professores, o guia aconselha que eles mostrem aos alunos desenhos ou figuras de “duas garotas de mãos dadas, dois garotos de mãos dadas, uma garota e um garoto se beijando no rosto, dois homens se abraçando depois que um deles faz um gol e duas garotas se beijando”.

As acusações de apologia ao bissexualismo ou homossexualismo (sic) feitas por Serra e Malafaia ao kit anti-homofobia poderiam ser feitas ao material de 2009, embora o candidato negue é muito parecido com o kit anti-homofobia do governo federal, inclusive no fato de não ser voltado à crianças, a ONG que produziu o kit de Serra é a ECOS e é a mesma que produziu o  kit de Haddad, inclusive dois vídeos fazem parte de ambos os kits.

A militância tucana costuma ressaltar que Serra foi um dos que mais fez por LGBTs, sim de fato ele fez bastante e por isso fiquei chocado com sua atitude em 2010, mas o fato de ter feito algo não lhe dá carta branca pra espalhar preconceito e intolerância contra LGBTs, o discurso eleitoral é homofóbico e é duplamente falso, pois inventa coisas que não estão no material e o próprio candidato já desenvolveu programas que hoje ataca.

As ações de Serra renderam críticas em diversos meios de comunicação, inclusive do Estadão e da FOLHA, que costumam ser acusados de “traidores golpistas”, ou “PIG”, pelos petistas. Editorial da FOLHA definiu bem a campanha de Serra ao chama-la de kit evangélico e é exatamente isso que o candidato impõe, um kit de ideias ultrapassadas, de uma única religião e pior, de um pastor que sequer pode se autoproclamar como representante dos evangélicos e muito menos de religiosos. Malafaia representa o que há de pior, ultrapassado e retrógrado não somente a LGBTs, mas a toda a sociedade.

Espero que a tentativa do pastor e de Serra de instaurarem o Tea Party tropical morra nessas eleições  e seja esquecida junto com a carreira de Serra, o nosso não querido, mas “eterno”candidato.

Eu pensei em escrever um texto sugerindo ao “Diversidade Tucana” que pressionasse Serra, mas creio que seja tarde pra isso. É tarde pra tentar resgatar o político que um dia respeitou a diversidade.

Serra teria aprendido muito se tivesse seguido o exemplo de seu colega de partido, o governador Geraldo Alckmin, que apesar de ter formação religiosa conservadora gravou um vídeo apoiando LGBTs e por diversas vezes se posicionou favorável a cidadania Gay.

Serra empurra o PSDB para um obscurantismo perigoso, o partido precisa rever qual a imagem quer ter, a de Serra com pastores intolerantes, ou a de Alckmin falando em igualdade e respeito.  Serra parecer querer trazer pra política brasileira uma espécie de Tea Party tropical e nesse sentido faz a bancada teocrata do Congresso parecer amadora.

Um político deve defender valores sim, mas não o da moral de um grupo, mas os valores que garantam acesso a cidadania de toda a população e não a exclusão de uma minoria, os valores que garantam os princípios democráticos e a garantam à laicidade e respeito de TODAS as religiões.

A ABGLT, em nota, fez um apelo a Serra pra que pare de usar a causa LGBT e a exploração de preconceitos pra tentar ganhar a eleição, o Deputado Jean Wyllys – PSOL criticou Serra no Twitter e declarou apoio a Haddad.

O debate deveria ser sério, pois estamos em uma país que está longe de ser chamado de tolerante, LGBTs sofrem todo o tipo de violência gratuita apenas por serem o que são.

O kit anti-homofobia se tratava de um material que visava apenas levantar o debate sobre a diversidade dentro das escolas, diferente do que dizem nunca foi voltado a crianças. Conforme já dissemos aqui em dezembro de 2010, o material foi fruto de um estudo sério no qual se constatou que a maioria dos alunos, funcionários, professores e diretores não estava preparada pra discutir o assunto e que o nível de discriminação é altíssimo. O “Escola Sem Homofobia” foi reconhecido pela UNESCO e pelo Conselho Federal de Psicologia, porém setores conservadores fizeram forte campanha contra o kit, sobretudo os vídeos e muita mentira foi dita.

Qualquer educador sério sabe que é impossível influenciar a sexualidade com filmes como os que continham nesse material. Em Minas já existe programa bem parecido desde 2008 e não há o menor indício da homossexualidade ter aumentado por lá. Em São Paulo, conforme dito, o próprio Serra já aplicou o uso desse tipo de programa e não houve alteração nos números de LGBTs.

Para quem é intolerante, o simples fato de combater o preconceito é chamado de apologia a homossexualidade, pois pra eles o interessante seria que gays fossem condenados à invisibilidade, ou que de fato desaparecessem.

Espero que Serra pare de ser um apologista. Apologista ao preconceito, apologista da intolerância, da homofobia do obscurantismo e do desrespeito ao Estado Laico.

Update: Programa de governo de Serra para download aqui. Só tive acesso hoje dia 16 e por isso não comentei no texto, a princípio vi que há parte sobre Direitos Humanos, mas não um tópico destinado a LGBTs.