Por Karla Joyce

Quando se entra no curso de Ciência Política da Universidade de Brasília, logo calouras e calouros são apresentadas ao universo do Congresso Nacional. A partir de então, descobrimos que lá é uma Casa Legislativa aberta, muito interessante para um passeio cívico ou para acompanhar de perto o que acontece na política deste país.

Eu, já com o status de cientista política, fui novamente à Câmara dos Deputados para acompanhar o seminário “Assassinatos de LGBTs”, realizado ontem. Fui não mais com aquela expectativa de caloura, ávida por descobrir um novo mundo em meu curso. Fui com a intenção de assistir o seminário e fazer uma observação digamos “antropológica”: eu quis sentir qual o clima na Casa no dia desse evento.

Cheguei atrasada (às 15h) ao evento por motivos pessoais e por não achar vagas no estacionamento. Mas pude acompanhar boa parte do que rolou por lá.

Logo que cheguei à Câmara, senti que os corredores estavam mais vazios do que o habitual. Provavelmente ainda são os efeitos da ressaca eleitoral e porque as atividades de Comissão na Câmara acontecem pela manhã. À tarde, a sensação de esvaziamento fica maior, algo que “melhora” ao final da tarde, quando surge a movimentação de deputados e assessores se encaminhando para a Sessão Plenária.

Como imaginava, o plenário onde ocorreu o seminário estava lotado e mal tinha lugar para sentar. Militantes do DF e de vários estados estavam presentes. “Curiosos” como eu, eram poucas pessoas. E foram poucos os parlamentares que foram prestigiar o evento, talvez uns oito ou dez tenham comparecido lá. Causas disso? Outros compromissos que deputados apoiadores tenham marcado no mesmo horário ausências ou isso mostra que existem poucos Deputados e Senadores que realmente abraçam a causa LGBT no Congresso Nacional. Mais uma hipótese: será aquele tipo de “homofobia cordial” (citada no seminário) em que a pessoa fala “gosto de você, apesar de gay, mas não vou apoiar em público/não vou apoiar o que você quer”? Essa reflexão eu deixo com os leitores.

Por conta do meu atraso, perdi as falas das mães de Alexandre Ivo e Douglas Igor, jovem que foi baleado por militares após a Parada do Orgulho LGBT da cidade do Rio de Janeiro. Quem me chamou mais atenção foi a mãe de Alexandre Ivo (jovem de 14 anos torturado e morto por um grupo de homens, após julgarem que ele “aparentava ser gay”), Angélica. A dor da perda do filho era visível em sua face e isso, por si só, já é exemplifica bem o sofrimento que a homofobia causa.

Como o plenário estava cheio e eu começava a ficar com dor de cabeça, fui dar uma volta pelos corredores da Câmara e do Senado, atrás de café, de um bom lugar para sentar e saber se havia mais LGBTs circulando pelas Casas. Após uma boa caminhada, não consegui meu café (por esquecimento meu), porém percebi que os LGBTs (militantes ou não) estavam concentrados no espaço das Comissões, marcando presença no Seminário.

Aqueles e aquelas que precisavam sair eram alvos constantes de olhares “espantados” dos transeuntes, principalmente as trans; a maioria dos autores desses olhares eram cidadãos comuns que ali estavam passeando ou fazendo suas reivindicações e, em menor escala, de servidores da Câmara. Creio que nem eles mesmos tenham percebido ou então já estão acostumados com tal situação. Isso mostra que, até mesmo dentro de uma Casa onde várias pessoas de diferentes perfis circulam, um LGBT causa estranheza.

Quando voltei ao plenário, consegui um bom lugar para sentar e assistir o restante do seminário. O que lá foi exposto foram dados concretos de pesquisa, imagens chocantes de vítimas da homofobia e testemunhos demonstrando que mata e cerceia o direito do LGBT ser quem ele realmente é enquanto pessoa e cidadão. Os dados apresentados demonstram que a homofobia cresce a cada ano no Brasil, motivadas pelo aumento das denúncias desse tipo de crime e pelo crescimento do ódio (isso mesmo, ÓDIO) contra os LGBT.

Quem ainda duvida que a homofobia é uma fantasia, algo que um “bando de gay inventou” ou é esporádica, pode conferir aqui: http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/videoArquivo?codSessao=00017724&codReuniao=24756

Este link que encaminho é o vídeo do seminário de ontem completo. Recomendo que assistam do começo até o final para ver a que nível este tipo de violência está no país. A homofobia, segundo os convidados, deixa o nível da intolerância para habitar o status do ódio. Com os dados e as falas, a sensação que tive é que se mata LGBT porque “essa raça tem que ser eliminada”.

Acredito que eu e os demais participantes tenhamos saído do seminário com uma sensação de pesar ao ver tantos crimes cometidos contra LGBT simplesmente pelo fato de serem diferentes do padrão heteronormativo que a sociedade dita. E a tristeza ao ver que muitos parlamentares, gestores e autoridades públicas não demonstram compromisso para mudar essa situação onde centenas de pessoas estão sendo executadas todos os anos por irem contra os tais padrões sociais.

O pesar também veio por parte dos políticos: o Deputado Chico Alencar e outros convidados lamentaram o fato de muitos políticos pró-LGBT não terem conseguido sua reeleição e alertaram para a próxima Legislatura¹ vir com parlamentares mais conservadores que esta.

Contudo, ao menos em mim, ficou uma esperança para que a luta continue cada vez mais forte. Ao ver tanta gente comprometida naquele plenário, eu espero que a militância LGBT capte mais forças nesse momento de visibilidade de tanto ódio para se articular e promover ações. Não apenas isso, eu espero que cada vez mais LGBTs acordem de seus “berços esplêndidos” (ou nem tanto) para caírem nessa realidade cada vez mais hostil.

Eu continuo minha vida de postulante à cientista política e de militante autônoma para conferir mais tijolinhos para a construção de uma cidadania LGBT plena. Não quero mais presenciar de perto o sofrimento de outras Angélicas Ivo, que choram diariamente a perda de seus filhos e filhas para a homofobia.

¹Legislatura é o período de funcionamento de uma Casa Legislativa, onde as leis são elaboradas. No Brasil, a duração da legislatura é de 4 anos. Atualmente o Congresso encontra-se na 53º Legislatura, que se encerrará ao final de 2010.