Por Marcelo Gerald
Estive neste domingo dia 23 em duas reuniões em São Paulo que me fizeram refletir sobre a importância do papel de nossa militância.
A primeira reunião foi a do Fórum Paulista LGBT e a segunda com membros dos fóruns virtuais: Ato anti-homofobia e Ação anti-homofobia – Alexandre Ivo.
A reunião do fórum paulista aconteceu no sindicato dos bancários e foi marcada por discursos acalorados, alguns ataques pessoais, acusações e esclarecimentos. A pauta era a anulação das eleições que aconteceram em dezembro, eu poderia detalhar a reunião mas não vou, o objetivo deste artigo não é se tornar uma minuta, ou ata e muito menos fazer fofoca, mas questionar a fragilidade do movimento LGBT.
O clima da reunião me lembrou a da eleição da parada de São Paulo que ocorreu no ano passado – só que o momento é outro. Nós atravessamos um período extremamente delicado com o arquivamento do PLC122, uma série de ataques homofóbicos, aumentando a cada dia, e isto tem chamado atenção da mídia e finalmente levantou o debate. A homofobia continua matando e ferindo como se pôde ver em Taboão – em que lésbicas foram agredidas sem sequer demonstrar afeto publicamente, bastando estar ali – um casal gay foi executado na semana passada e, enquanto isto, parte da militância se encontra imobilizada por questões de ordem, questões pessoais e outras tantas internas que precisam sim ser discutidas e superadas com urgência.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a falta de um estatuto ou regimento interno claro. O fórum não tem! Sequer há previsão para a anulação de uma eleição, até mesmo comunidades virtuais que discutem assuntos banais tem um estatuto. Nenhum fórum sobrevive sem regras claras e são estas brechas que acabam abrindo espaço a perda de foco e a causa LGBT termina em segundo plano.
Deixando de lado um pouco as questões negativas eu pude notar várias positivas também . Vi muitas pessoas com vontade de lutar e fazer algo maior. As trans dentro do nosso grupo são as pessoas que encontram maiores dificuldades de aceitação e de trabalho e o fórum foi marcado pela presença de várias, muito conscientes de sua luta, de suas dificuldades e necessidades. É importante que elas tenham voz, pra que suas demandas não sejam relevadas a segundo plano. Outros discursos marcantes cobraram a seriedade e credibilidade do fórum, o uso da internet como ferramenta importante pra militância – muitos ainda torcem o nariz pra rede – e, principalmente a necessidade de parar com o processo de queima de militantes. Diferenças ideológicas, partidárias e pessoais não devem ficar acima da luta contra a homofobia.
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Eu tive que deixar a reunião um pouco antes de seu término, já sabendo que a nova eleição acontecerá no dia 20 de março sai de lá debaixo da chuva e fui pro Centro Cultural onde foi realizada a outra reunião dos grupos anti-homofobia do facebook. Os organizadores são os mesmos que idealizaram os protestos em frente o Mackenzie e da Ofner e agora estão trabalhando pra que a marcha contra a homofobia aconteça em São Paulo.
Este grupo também sofreu perdas recentemente pela falta de regras em seu fórum vários ataques pessoais fizeram com que militantes partissem. Pode ser que pra alguns traga um certo alívio se ver livre de pessoas que pensam ideologicamente diferente, mas o que estas pessoas não percebem é que com estas perdas nos tornamos a cada dia mais fracos, pessoas que entram somente pra causar discórdia e promover ataques pessoais devem ser cortadas não as que temos divergências ideológicas. O curioso é que os que atacam nunca aparecem nas reuniões importantes e nos atos promovidos pelos grupos.
A Reunião se iniciou com um número maior que o esperado debaixo de chuva forte, 24 homens e 1 mulher. Eu senti falta de maior representatividade do gênero feminino, mas foi muito produtiva. A marcha ficou agendada para o dia 19 de fevereiro e as questões discutidas e propostas na reunião serão levadas pra Frente Paulista Contra a Homofobia na reunião do dia 29 de janeiro.
Terminamos debaixo de chuva muito forte e acabamos todos presos, o que de certa forma não foi ruim porque continuamos discutindo estratégias de ação.
Foi um dia cansativo pra mim, mas muito produtivo eu voltei pra casa com sentimento de que estávamos iniciando algo importante.
Eu termino dizendo que o Fórum paulista LGBT e os atos contra homofobia do facebook são completamente diferentes e distintos. O fórum é composto em sua maioria por pessoas experientes que estão na luta contra a homofobia há tempos e também por ONGs novas que estão surgindo em busca de seu espaço. Os grupos do Face são compostos por pessoas que estão chegando com garra e vontade de fazer algo pra mudar a nossa realidade em conjunto com alguns mais experientes. Os dois estão no mesmo texto pela coincidência de datas de suas reuniões e também por encontrar problemas recentes muito parecidos nos dois grupos.
Desqualificar é a palavra de ordem, fulano não serve porque tem ligações com tucanos, o outro não serve porque alguém não gosta da maneira que coloca suas ideias, outros porque aparecem demais, outros porque simplesmente não gostam dele. Muito disto tudo acontece por divergências pessoais, mas em grande parte visa atender interesses políticos e pessoais e também por ganância de poder em espaços que não há sentido este tipo de jogo. A nossa luta é contra a homofobia e não por interesses particulares. Estas coisas menores afastam membros, afastam pessoas que poderiam agregar e muitas ONGs menores ou pessoas que estão interessadas podem acabar desaparecendo ou engoldas por estas questões.
Eu espero que os grupos discutam e resolvam o quanto antes estas questões, sobre o fórum paulista esta nova eleição é de extrema importância, inclusive pra sua credibilidade, os grupos do face estão trabalhando em seus estatutos, o que talvez feche as brechas que dão margens a perda do foco, a marcha está sendo organizada será divulgada aqui em breve e isto é o mais importante que cada grupo aprenda com seus erros.
As nossas fragilidades abrem campo pra pessoas mal intencionadas que se infiltram apenas pra atender interesses políticos, outros que nos veem como maneira de ganhar dinheiro, como aconteceu com a tentativa da venda de abadás na parada de São Paulo.
A falta de regras, de agenda e objetivos claros atrapalham nossa militância, não há como caminhar desta forma, o pior de tudo é que este artigo foi a uma das coisas mais óbvias que escrevi.







Adorei esse blog ele tem otimos textos depois dê uma olhada no meu
Já é tão difícil fazer com que a comunidade LGBTT se mobilize e se interesse por SEUS direitos, que se continuar ” a queima de mitilantes” realmente vai ficar muito complicado chegarmos lá.
Os textos sempre (mesmo “óbviu”) são ótimos!
E assim vamos, analisando os problemas, aparando arestas, reconhecendo nossos erros e potencialidades.
A única ‘patrulha’ que reconheço é aquela contra egos inflados. De intolerância nos basta a homofobia, e basta mesmo!
É contra ela que devemos trabalhar unidos, e também contra os ‘infiltrados’ que nos tratam apenas como nicho de mercado ou reserva eleitoral.
Para eles interessa a manutenção dos vários guetos, do apartheid, inclusive entre as várias facções da militância.
Excelente texto!
Parabéns!
“Diferenças ideológicas, partidárias e pessoais não devem ficar acima da luta contra a homofobia” -- essa frase, perfeita, é o que deveria servir de princípio geral informador da militância atual, muitas vezes incapaz de um diálogo frutífero por conta de suas ideologias partidárias, colocadas acima do que realmente importa, que é a militância em prol dos direitos LGBTs… Mariante é uma grata exceção nesse pandemônio, por colocar a causa LGBT acima de questões partidárias…