Os eleitores brasileiros estão de frente a uma verdadeira cruzada pelo voto religioso nesse segundo turno para as eleições para presidente. Disputando os votos de evangélicos e católicos fervorosos os dois candidatos a presidência: José Serra e Dilma Rouseff têm feito dos horários eleitorais gratuitos uma pregação em nome da “família cristã”. Para variar, quem acaba sendo alvo dessa propagação de discursos vazios e falso-moralistas são as minorias.

De repente educação, segurança pública, saúde ficaram em segundo plano. De olho nos votos dos eleitores de Marina no primeiro turno, Serra e Dilma direcionaram suas falas a uma parcela da população preocupada em difundir crenças subjetivas e retirar direitos constitucionais de todos aqueles que não se encaixam em sua visão cristã. Defender que isto é extremamente antidemocrático seria óbvio demais. Por isso, há a necessidade de se analisar alguns fatos que ocorreram nas últimas semanas.

Ainda no primeiro turno os três principais candidatos a presidência se esquivavam de temas polêmicos. Quando questionados sobre casamento civil e criminalização da homofobia os candidatos desconversavam. Marina levava tudo ao campo do “plebiscito” uma forma bem estranha de lidar com os direitos de minorias. Entretanto, a candidata do PV, evangélica da Assembleia de Deus, não foi poupada das críticas duras de Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus (e uma das lideranças mais homofóbicas do país) que pôs em questionamento os plebiscitos da candidata, nomeadamente os referentes ao aborto. Na época Malafaia declarou apoio ao candidato do PSDB, José Serra alertando os fiéis de sua igreja no perigo de votar em Dilma. A cruzada contra a petista no campo moral só estava começando, e-mails acusando Dilma de declarações anticristãs correram na internet, com informações distorcidas e vídeos propositadamente editados. Nenhum dos e-mails trazia algo relacionado às propostas dos candidatos, mas sim valores morais, altamente questionáveis.

Enfim, chegou o dia das eleições e Dilma não venceu em primeiro turno ficando com 46,91% dos votos, contra 32,61%de Serra e 19,33% de Marina.

Marina – evangélica – família cristã – voto cristão.

Essa foi a equação criada pelos candidatos para explicar o porque de Dilma ter perdido votos, e o porquê de Marina ter levado quase 20% dos votos nas eleições.

O que se viu em seguida foi um festival de desrespeito à democracia. De olho nos votos “possivelmente evangélicos” de Marina, os candidatos à presidência começaram a leiloar suas ideologias e suas propostas, começaram a leiloar direitos de pessoas. O debate caiu, a repetição de falácias religiosas começou exaustivamente a fazer parte do discurso dos candidatos. A palavra ferrenha da convicção moral cristã, calou qualquer oportunidade de se discutir problemas sérios no país.

O vice de Serra, Índio Costa do PSDB veio a publico dizer que não concorda com a PLC122, usando o discurso falho dos líderes religiosos, que deturpam tudo a sua vontade, para dizer que a criminalização da discriminação por orientação sexual seria uma afronta à liberdade de expressão religiosa, como se discriminar fosse um direito, como se negar acesso das pessoas aos lugares por causa de sua orientação sexual, fosse liberdade de se expressar. A democracia foi ao lixo. Índio conseguiu mostrar como o oportunismo é mais válido do que sua integridade, e propagou o discurso de Silas Malafaia como um papagaio.  Não era de se esperar saber que ambos tinham o telefone um de outro e conversavam sobre que rumos deveria o novo presidente do país dar aos direitos de minorias.

“O pastor evangélico Silas Malafaia se declara uma barreira para os homossexuais. Admitiu que ligou para o vice de Serra, Índio da Costa, pedindo apoio para “não aprovar esse absurdo”. Se referindo a PLC 122. (O Dia – Online)

Depois das declarações vergonhosas do vice de Serra, foi a vez de Dilma ser questionada acerca do assunto. Durante um debate com religiosos logo após o primeiro turno no qual estava presente o ex-pagodeiro e agora pastor evangélico Waguinho, Dilma teria se posicionado contra a PLC 122, por restringir a “liberdade religiosa”. Segundo Waguinho, “Ela concordou que nada venha a interferir na pregação religiosa. Há algumas questões na PL 122 que fazem exatamente isso. Quer praticamente calar a boca do pastor evangélico que prega que a pessoa homossexual precisa ser tratada, cuidada e amada acima de tudo. Não podemos nos privar de falar isso para as pessoas.” (Folha Online). Apesar de não terem sido palavras que comprovadamente saíram da boca de Dilma, e de se duvidar que a segunda parte referente a necessidade de tratamento de gays tenha sido dito pela candidata, Dilma não comentou o caso.

Para você que quer saber o que diz a PLC 122:

http://eleicoeshoje.wordpress.com/plc-122/

Todo este espetáculo que visa leiloar direitos e deturpar leis que garantam cidadania aos LGBTs, aconteceu porque supostamente os votos a serem disputados no segundo turno são dos evangélicos.

Mas será que são mesmos?

Em matéria da Carta Capital do dia 5 de outubro, a revista faz uma análise dos eleitores de Marina, e chegou a conclusão de que os votos em Marina são uma espécie de terceira via entre PSDB e PT, chamada de “nova classe média”. Segundo a reportagem:

É uma camada principalmente urbana, que progrediu em relação aos pais pobres e mal educados, tem certa educação, até superior, está decentemente empregada e precisa cada vez menos de programas sociais como o Bolsa-Família, do SUS ou de novos projetos de saúde e saneamento. Ao mesmo tempo, é mestiça, não está à vontade com a “alta cultura”, tem gostos populares e se sabe desprezada pela elite tradicional. Não se identifica totalmente com as prioridades da esquerda – redução da desigualdade e crescimento econômico – mas também não com as da direita – conservação de privilégios disfarçados em competência e meritocracia. Busca um meio-termo que, assim como Marina, não sabe definir com precisão e chama de “mudança”.” Carta Capital. Ainda segundo a reportagem: “Não é a parcela da opinião pública mais conservadora, nem a que tem seu voto definido pelo padre, pelo pastor ou pela questão do aborto. Estes provavelmente votaram em Serra.”.

Então o que acontece?

Sabemos que Silas Malafaia está com Serra, que Crivella apoia Dilma. Sabemos da posição homofóbica do vice de Serra e da possível declaração de Dilma contra os direitos LGBTs. Independente de para quem for os votos de Marina o mínimo que se espera nessas eleições seja o bom-senso. Superestimar uma parcela da população que vota em candidato de pastor em detrimento daqueles que tem propostas sérias para o país, ou mesmo leiloar direitos de minorias em troca de votos reacionários é uma afronta ao Brasil, à igualdade de direitos, a liberdade de expressão, a democracia e ao Estado Laico.

Fontes:

http://eleicoes.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/10/08/brasil-regride-seculos-com-programa-eleitoral-sobre-deus-aborto-e-familia.jhtm

http://www.athosgls.com.br/noticias_visualiza.php?contcod=30120

http://www.clicabrasilia.com.br/site/noticia.php?id=303439

http://odia.terra.com.br/portal/brasil/eleicoes2010/html/2010/10/gays_protestam_contra_vice_de_serra_e_homofobia_115594.html

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/indio-e-malafaia-em-conflito-com-a-comunidade-gay

http://oglobo.globo.com/pais/eleicoes2010/mat/2010/10/07/psdb-nao-discute-projeto-sobre-discriminacao-homossexuais-que-seria-defendido-por-vice-de-serra-922734561.asp

http://odia.terra.com.br/portal/brasil/eleicoes2010/html/2010/10/vice_diz_que_serra_vai_ser_contra_direitos_dos_gays_115311.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0710201009.htm

http://www.cartacapital.com.br/politica/voto-em-marina-nao-e-ecologico-mas-tambem-nao-evangelico