Por Adriano Mascarenhas
André Almada, um dos mais conhecidos empresários do entretenimento gay do Brasil, foi visto hoje numa foto que, se não fosse a alienação costumeira do povo brasileiro (não digo dos gays apenas!), seria mais constrangedora que a de Lula com o Maluf. Juntamente com outros empresários da moda, ele posou com ninguém mais ninguém menos que o Russomano, candidato preferencial do projeto de poder teocrático evangélico para São Paulo e o Brasil.
Meu primeiro pensamento ao ver a imagem foi: “Pera lá, vai ver isso foi tirado de contexto, etc, etc, etc”. Infelizmente, em período eleitoral, este é um temor justificado. Entretanto, no site do PTB e no Facebook de um dos deputados que compareceu ao evento há o seguinte texto:
“Fashionistas e GLS ouvem propostas de Russomanno
Empresários da moda e um público predominantemente GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) ouviram hoje as propostas dos candidatos D´Urso e Russomanno, da coligação “Por Uma Nova São Paulo”. O encontro aconteceu na noite de 6a.-feira (14/9), na boate The Society, do empresário André Almada, e foi promovido pelo PTB Diversidade, departamento que desenvolve políticas para o tema.
O presidente do Conselho Político da campanha, deputado Campos Machado, e o presidente do PRB, Marcos Pereira, acompanharam Russomanno. Também participou do encontro o presidente do PTB Ambiental, o advogado Antonio Fernando Pinheiro Pedro.
O empresário e ex-deputado estadual Turco Loco, proprietário da grife Cavalera, definiu o sentimento do setor: “Ninguém mais aguenta ter que votar num cara que foi eleito prefeito e depois abandonou a prefeitura, nem no PT, que não tem a cara de São Paulo.
Na mesma linha, o deputado Campos Machado afirmou: “Estamos acabando com a polarização PT/PSDB, e isso vai influenciar o Brasil todo.”
Russomanno garantiu a todos que na sua gestão a cidade de São Paulo vai ser mais inclusiva e tolerante.
O candidato da coligação prometeu transformar a cidade num centro de referência de moda, que vai gerar empregos para toda uma cadeia produtiva, que começa com costureiras, passa por maquiadores e chega até as boates.”
Veja mais fotos do evento aqui.
Isso me deixou enojado. Não há nada fora de contexto aí, e aproveito para criticar essa foto pelo mesmo motivo que critiquei a do Lula: Ela simboliza uma completa deturpação dos valores políticos em jogo nessa eleição.
Compreendo que o processo democrático contemple o diálogo com várias candidaturas. Entretanto, todo mundo que tem algo similar a “princípios” impõe certos limites a isso. Não se dorme com o inimigo. Se ÉTICA fosse um princípio mandatório desses diálogos, Russomano deveria ter saído desse encontro de mãos abanando, e eu duvido que isso tenha acontecido (afinal, o simples fato de permitir o uso da imagem para a campanha já diz algo sobre esses empresários!). A única coisa capaz de desmentir isso seria um comunicado público de André Almada negando o apoio, e eu duvido que essas figuras escorregadias queiram expor suas posições desse jeito. O texto sequer menciona o que ele disse sobre as propostas!
Essa camada de sinceridade é o que anda faltando nas campanhas políticas. Porque, francamente, vamos abrir os olhos? Ali estavam não apenas os candidatos, mas uma equipe com: coordenadores da campanha, do partido, e até mesmo uma SETORIAL voltada para assuntos LGBT. Ou seja, eles não foram ali só para “fazer a social”. Essa reunião, como qualquer reunião de campanha, foi fruto de um planejamento bem meticuloso. Aí é que eu gostaria MUITO de saber quais concepções de “tolerância” (argh!) e de “inclusão” estão em jogo, porque… né? Essa é a campanha do Russomano, não podemos nos esquecer disso. Ele é o mesmo candidato da “igreja em cada esquina”, e a menos que você seja um dos iludidos que acredita no mito da fofa “coexistência religiosa” brasileira, isso é péssimo, porque é como se tentassem misturar água e óleo. Quanta coerência há nessa foto?
Nenhuma. André Almada e os outros da foto devem suas fortunas aos milhões de gays que gastam seu dinheiro com os produtos e serviços deles. Deveriam ter um pingo de responsabilidade social com esse dinheiro e pensar em alguma forma de devolvê-lo a seu público, apoiando uma candidatura realmente militante. Na prática, estão apoiando o candidato de uma igreja homofóbica e salafrária que tem tudo para lutar contra os parcos avanços que estamos tendo. E os gays que alimentam isso com seu “pink money”, se não forem tão homofóbicos quanto essa candidatura, estão sendo iludidos e coniventes, e pior: estão financiando uma campanha cuja homofobia é um de seus pilares ideológicos centrais.
E não adianta me chamar de conspiratório por causa disso, gente. É só olhar a composição das alianças políticas desse candidato. Quem estiver esperando avanços para as políticas LGBT desse povo precisa urgentemente de um pouco mais de senso crítico, para deixar de ser feito de idiota. Tem gente que se satisfaz em ver uma setorial LGBT, como se isso significasse algo por si só! Isso é ridículo! Se nem no PSDB isso vingou a contento, como é que pode haver gays num partido desse? Isso tudo é vontade de ganhar cargo de confiança depois? A que preço?
Gostaria de registrar, por fim, que, com todo o respeito que tenho por quem trabalha com moda, não posso concordar que propostas como essa apresentada no fim do texto sejam alçadas ao posto de política de combate à homofobia. Ela se baseia numa visão simplista de homossexualidade como adorno fashion de uma sociedade conservadora, que tem espaços muito bem delimitados para os gays e não chega nem perto de entender o que é realmente diversidade. Eu dispenso esse jeito “Serginho” de fazer ativismo.
Por fim, é triste perceber que a saturação da polaridade entre o PT e o PSDB está gerando adesões a uma campanha dessas. Isso é sinal que os motivos reais de dissidência entre o conservadorismo e o progressismo não estão sendo compreendidos, e em vez de pressionar por melhorias no discurso político desses partidos ou favorecer uma oposição mais moderna, as pessoas estão pendendo para o pior lado possível. O deputado disse que o PT “não tem a cara de São Paulo” (seria um apelo ao “paulistismo xenofóbico?”). Fico pensando… é essa a cara dessa cidade então?
Se você também discorda dessa união estranha de interesses poderá participar do ato que está sendo organizado no Facebook.







Deveríamos organizar um boicote a esse empresários e suas marcas, com manifestações públicas inclusive em lojas, em td o pais. São Paulo é referencia a tds nós e esse ato irresponsável afetará a td a comunidade GLBT do Brsil.