Por All Moon 
Não somos cachorros, não (mas merecemos respeito)!
O assunto mais comentado no Brasil, nesta semana que passou, foi um vídeo em que se pode ver o quão rasteiro e doentio pode ser um caráter de um indivíduo: um ser (que, por respeito às convenções sociais, terei de chamar de humano) matou covardemente um inocente cãozinho, com uma frieza que deixaria Bolsonaro urrando de inveja.

Tal barbárie causou uma comoção nacional. A imagem de um animal sendo sacrificado em nome da crueldade humana (talvez, a única forma de crueldade existente na natureza), com a agravante de este ato de boçalidade extrema ter sido presenciada por uma criança, resta-se gravada até mesmo no subconsciente daqueles que (como eu) não tiveram coragem de assistir a este documento comprovante da miséria humana.Entretanto, este fato nos revela um outro elemento indicativo da miserabilidade afetiva que parece ser a marca das sociedades “civilizadas” neste Terceiro Milênio. A estupidez bárbara perpetrada contra um cão conseguiu causar mais comoção do que as mortes igualmente cruéis de centenas de homossexuais em todas as partes deste país.

 Nos últimos dias, assistimos a uma verdadeira avalanche de manifestações em prol de um aumento de pena para os crimes cometidos contra os animais. Em algumas delas, pensava-se até mesmo incorporar ao crime de homicídio a matança indiscriminada de seres de outra espécie.

É necessário esclarecer que nada tenho contra as medidas que visam a proteger outros seres que habitam este planeta e que, portanto, têm tanto direito à vida como nós, “homos (nem tão) sapiens”. Em meus tempos de acadêmico de direito, cheguei a propor, em um debate sobre Direito Penal, a criação dos tipos “Morte de animais” e “Lesão corporal em animais”, na medida em que, ao que me consta, animal também possui uma vida e um corpo.

Porém, enquanto há pessoas engajadas na luta pelo endurecimento da punição aos energúmenos que se julgam no direito de exterminar as formas de vida mais frágeis, muitos não querem o aumento da punição para crimes motivados por homofobia.

Quando o jovem ALEXANDRE IVO perdeu a vida nas mãos de assassinos cruéis, por exemplo, não só não houve tanta repercussão, como chegaram até a criar comunidades em redes sociais comemorando o feito. Afinal, era “menos um viado no mundo”

 E nem podemos dizer que não houve comoção em virtude da ausência de fotos chocantes. Ainda circula na Grande Rede a foto do corpo de Alexandre sendo periciado pelos Técnicos da Polícia Civil. E se a imagem um corpo de um adolescente espancado até a morte não causa a mesma comoção que as cenas de uma covardia enlouquecida praticada contra um pobre cão, só posso chegar a uma triste conclusão: NO BRASIL, HOMOSSEXUAL VALE MENOS QUE CACHORROS.

Esta impressão geral foi corroborada nesta mesma semana, em que a morte de um outro garoto de 14 anos, desta vez no interior de São Paulo, com requintes de crueldade que nos apontam para mais um caso de homofobia no país, foi ofuscada pelo ato bárbaro envolvendo um animal.

Não tenho dúvidas de que uma lei que vise à aumentar a pena ou criar tipos penais mais rígidos para se combater a violência contra animais seria aprovada facilmente pelo Congresso Nacional. Enquanto isso, o projeto de lei que cria o crime de homofobia, PLC122, ainda “patina” no Senado. E nem mesmo a constante presença da Srª Angélica Ivo, mãe de Alexandre, às sessões em que a matéria é discutida tem sensibilizado aqueles Senadores que ainda pensam (ou fingem pensar) não existir homofobia no Brasil.

Mas este descaso do Congresso com a vida humana é um mero reflexo da boçalidade social ainda vigente neste país. Em uma pesquisa realizada em meados de junho/julho de 2011, constatou-se que o homem médio brasileiro choca-se mais com a cena de dois homens se beijando do que com a cena de um espancamento motivada por preconceito de orientação sexual. Dessarte, o que esperar de um país que se escandaliza com amor e que aceita a barbárie.

Por esta razão, não acredito em toda esta indignação social causada pela morte do cachorrinho. Penso que quem não respeita ou protege TODAS AS FORMAS DE VIDA, não terá credencial para sair em defesa de nenhuma, por mais que esta seja mais frágil. Além disso, se não cuidamos daqueles que são de nossa própria espécie, só posso considerar COMOÇÃO HIPÓCRITA toda esta revolta em torno da barbárie praticada com o cão.

Enquanto homossexual, só posso mandar um recado à sociedade brasileira: não somos cães, mas merecemos respeito.