A exterminação de Lady Gaga e o ser-mulher.

Por Johnny Dias

Ela já não mais esconde as feridas, nem foge do príncipe, para que ele a capture ou salve no final do conto, como se o homem fosse o responsável legal e corpóreo da mulher, seu juiz e seu algoz.

Ela, Lady Gaga, e seu corpo materializado em sangue, Bad Romance ,herdeira da fiel certeza de que ela é uma mercadoria, mas se assim o for, deve-se entende-la como resultado direto da assertiva outrora proferida por Walter Benjamin, pois, ao ser mercadoria, vale mais do que por ela pagamos.

Lady Gaga é um personagem, o tempo todo, no show ou fora dele. Quem esta por trás do personagem Lady Gaga?

Figura dúbia, não se sabe de sua sexualidade, isso porque ela não o tem, ao ter. Ela é o oposto do que apresenta. Se a querem feminina e delicada, ela grita Alejandro e o faz dominado em suas cordas, pisoteando-o. Caso a queira traiçoeira, mostra, por sua vez, o seu rosto super maquiado em Bad Romance, a espera de seu homem, espécie de subordinação ao modelo machista, que, pra salvação de sua estirpe, ela queima no final, como também para queimar o sistema patriarcal.

Mas, ela é sistema, ou ao menos seus roteiristas e diretores, como faz notar Márcia Tiburi, posto que a quantidade é sempre uma questão mais importante que a qualidade, e isso a rede youtube e o acesso massivo aos seus vídeos o confirma.

Entrementes, pensando na subsunção da qualidade pela quantidade, chegamos ao conceito nietzschiano de “desejo de rebanho”. Em vista do conceito, e se a tendência é se vestir, assim como, ouvir e assistir do mesmo que todos escutam ou assistem, por que motivo simplesmente alguns a odeiam?

Regressando ao raciocínio inicial, se Lady Gaga vale mais do que pagamos por ela, quais os fatos que levam alguns a odiá-la tão veemente ou restringi-la a um grupo minoritário?

Enquanto eu escrevia este artigo a psicanalista e gestora da Central do Trabalho, também ela amiga magistral, Ana Maria G. Moreno, alertara-me para o fato que não existe, na obra de Sigmund Freud, relato de um “ espírito” de superioridade, apenas, e tão só ele, o de inferioridade.

Com a mente no espírito de inferioridade se entende muito bem porque o ódio ao desempenho de  Gaga esta tão atrelado ao desejo de exterminação, como se ela fosse um inseto, e que, portanto, deve ser extinto, como um dia, não ao acaso a comparação, fizeram os nazistas com os judeus, usando inclusive,  do mesmo mecanismo dos inseticidas, a intoxicação, no caso, com gás carbônico depois Zynklon-B, este, trago à baila, utilizado originalmente para matar insetos e roedores, dai a analogia feita.

Ou, não menos certo, esteja TIBURI ao declarar que

“ o crime de Gaga aquilo que a fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?” ( in: Crime de Lady Gaga, Revista Cult)

 Marry the night

Sob o meu ponto de vista, contudo, é em Marry the Night que se fará entender aos reais motivos deste corpo morto da mulher.

Certamente a artista faz aquele esforço de pensamento já preconizado por Michel de Foucault, ao explanar sobre a legalidade do poder por meio do sangue. Pense, era o sangue na antiguidade que distinguia as pessoas por castas, ou mesmo sua valentia “deu o sangue pelo país”. Valia revelada pela frase sobranceira: “de sangue azul”, segregando assim aos que ela pertencia ou não.

Diz Foucault.

Foram os novos procedimentos do poder, elaborados durante a época clássica e postos em ação no século XIX, que fizeram passar nossas sociedades de uma simbólica do sangue para uma analítica da sexualidade. Não é difícil ver que, se há algo que se encontra do lado da lei, da morte, da transgressão, do simbólico e da soberania, é o sangue; a sexualidade, quanto a ela, encontra-se do lado da norma, do saber, da vida, do sentido, das disciplinas e regulamentações.” Michel de Foucault , p. 139: 1988)

A parte normativa, regulamenta e eugenista é que Lady Gaga ira defrontar, usando a histeria enquanto manifestação associada às mulheres e sua postura psicológica, Marry the night chega no hospital, como corpo aparentemente morto, sem maquiagem, em uma maca, carregada por outras mulheres. Quando se nota, tratasse de um hospital, também ele tomado só por mulheres Encarando a frívola figura da mulher mártir, ela chora, com um olhar doce e lábios trêmulos, qual Branca de Neve e seu desejo de sempre ser ajudada. Branca de Neve que também é ela filha do sangue e da neve. Sangue de uma mulher, manjedoura.

Ela, Marry, mostra sua não-vida como metáfora-fotografia das mulheres associadas a infantilidade pelo choro, como quem solicita socorro.

Parada em sua cama, dela se retira a última lembrança do seu aspecto “dona de seu corpo”, o cigarro, elemento freudiano, tão ele diretamente relacionado ao modo “night” de Marry.

Em sua revisão da liberdade, se verifica uma mulher-antítese, se uma agora se fragiliza na cama, a rememoração a mostra outra, maquiada, dona de seu corpo, capaz, esquecida de seu “destino de Adão de saias”

A retratação do quadro de histeria é feito pela cantora, como se antevê, de forma a trazer luz à escuridão conceitual de associar a histeria como falta, porque isso significaria que uma mulher histérica é aquela que é feita de uma natural ausência, referindo-se diretamente ao cunho sexual do termo. Ledo engano conceitual e massificado.

Esquece o homem do movimento histórico do corpo feminino, pois, se se acreditava ser a mulher a única, na Era do Fogo ( referência direta ao período histórico e ao  filme de mesmo nome) a responsável legal e exclusiva pela reprodução, gestação e criação do filho, isso foi mudado quando o homem tomou consciência que até mesmo para ter um filho, a mulher precisarei dele. História esta que a medicina e biologia, por sua vez, na pós-modernidade líquida, novamente muda, visto que hoje apenas com a inseminação artificial a mulher consegue engravidar, pagando pelo processo, e não mais sendo escrava do regime austero do homem-pai, como nos faz lembrar o sempre recorrente Engels.

A artista incompreendida, recorte que liga intelectuais à dor extrema, o espelho de sua incompreensão, e como em A tempestade de W. Shakespeare, parece ela também optar por jogar no mar toda a sua obra, salvo a proporção do lócus, o mar ser a banheira, e a obra seu próprio corpo.

Lady Gaga é a personagem dentro da personagem, e como no caso da cebola, seu centro é oco, não de vazio, mas de pura metafísica, ou, com outras palavras, ela é a natureza, em seu âmago.

Realismo extraordinário?

Na luta pelo conceito mulher, pelo ser mulher, é em Marry the Night que se chega a verdadeira libertação.

Gaga ou Marry, já não se sabe ao certo, proclama aos valores uma implosão, pois, cada um tem a sua maça envenenada, e a atualidade, quem sabe, insistirá em matar Lady Gaga, como um dia mataram nos campos nazistas, ou, ao índio Pataxó, simplesmente por não responderem ao nível de realidade repleta de normose ( a doença de querer ser normal demais), mas que fique a nota: sem ser um pouco malandro ou cometer a falta grave de olhar pela fechadura, e ter um pouco de ousadia, “não se faz nada direito”.

Quem ficar por último, por favor, apague a luz.

Marry The Night – The X Factor 2011 ao vivo

Este texto foi inicialmente postado na revista É Fato.