Por Marcelo Gerald

A ressaca das eleições está passando, mas ficam várias questões, o que vai ser daqui pra frente?

Tivemos várias perdas significativas.

Fátima Cleide a relatora do PLC 122 não se reelegeu, assim como Iara Bernardi, autora do projeto não foi eleita em São Paulo, por outro lado tivemos avanços  nestas  eleições, Jean Wyllys, o primeiro candidato gay assumido e com propostas  que  atendam LGBTs foi eleito e vários outros aliados como Erika Kokay, Marta Suplicy, Lídice da Mata e Carlos Minc, a  bancada evangélica encolheu vários nomes tradicionais não foram reeleitos, mas  surgiram alguns novos.

Uma análise neste momento pode ser precipitada, entre perdas e ganhos, mas o que esperar dos eleitos? Quem terá coragem para assumir o PLC 122, sendo que políticos que se aproximam do projeto tem sua imagem constantemente atacada por fanáticos religiosos?

No meio deste ano ficamos estarrecidos com a morte de Alexandre Ivo um jovem de apenas 14 anos vitimado por homofobia, além dele foram assassinados brutalmente vários outros e os dados chegam a um a cada dois dias.

Até quando o Senado Federal vai se omitir?

Passou da hora de esclarecer que a lei não coíbe a liberdade religiosa e não cria nenhum tipo de status especial para homossexuais, mas pune a discriminação por orientação sexual, atende a todos, homo e heterossexuais. O destino do Projeto de Lei neste momento é incerto. Marta Suplicy, por exemplo, tem um bom histórico no legislativo e sempre marcou presença em Paradas do Orgulho LGBT, mas quando esteve no executivo fez pouco ou quase nada. Retomará uma bandeira histórica de seu partido?

A militância LGBT também tem que fazer sua parte e principalmente evoluir. Anos de desgaste  durante a ditadura militar e hoje ser militante por qualquer causa é visto como algo suspeito ou negativo por grande parte da população. Os modelos existentes remetem ao dos sindicatos, dos protestos políticos, ou paradas cívicas como 7 de Setembro e quebrar esta imagem parece  um grande desafio.

Durante o debate político observamos um discurso raso, por vezes polarizado entre PT versus PSDB.

A causa LGBT ficou em segundo plano, pouco se cobrou verdadeiramente destes candidatos, que fugiram de temas sensíveis a ela. Ninguém quer falar sobre o PLC 122, adoção conjunta por homossexuais ou o tabu que envolve o casamento civil. O discurso de que o ‘casamento’ é um ‘sacramento’ e não uma instituição civil tomou conta da agenda política e não foi desmascarado graças, em parte, à ineficiência de nossos repórteres e também de nossa militância. Muitos repetem à exaustão que o PT é o partido que defende LGBTs, mas o partido esteve 8 anos no poder e muito pouco fez. Entre suas ações estão o dia de combate à homofobia, o Primeiro Congresso LGBT e a declaração conjunta do imposto de renda. Os primeiros sem ações práticas efetivas e a última após manifestação e pressão do judiciário.

O Executivo culpa o Legislativo e diz que não tem poder para promover mudanças. O Legislativo culpa a ‘bancada religiosa’, mas teria ela toda a responsabilidade pelo que os outros deixaram de fazer? Ela não é maioria no congresso. Faz barulho e conquista espaço dentro da mídia, mas isto justifica tamanho poder? Não nos interessa se as convicções religiosas de um político permitem que ele aceite gays, o bom político não deveria governar pra atender seus princípios particulares, mas às políticas e demandas de toda a sociedade.

Dilma e Serra sequer assinaram o termo de compromisso da ABGLT e vários militantes de ambos os lados acreditam ser aceitável que não se comprometam, pois poderiam se queimar. Isto levanta a questão de como alguns gays se acostumaram com migalhas e a serem vistos como cidadãos de segunda classe, fazem discursos contra a militância, contra ONGs, contra paradas, contra o ‘meio’ gay, a identidade e ainda atacam celebridades e políticos que nos apoiam. A verdade é que muitos só resolverão este problema com muita análise. A mensagem que passam é de que ‘é errado ser gay, que gays são “podres”, promíscuos e quem os apoia são interesseiros’. Há também os que se dizem militantes, mas acham natural discriminar afeminados, pobres, idosos, bissexuais e ‘feios’, não votam em políticos gays. São como verdadeiras células cancerígenas dentro da militância repetem a todo custo, incansavelmente o senso comum e pregam a ditadura da liberdade absoluta de expressão, transformando assim preconceito em questão de “opinião”.

O que parece faltar no movimento gay é uma agenda de metas e prioridades. E independência política. Alguns envolvidos com a militância misturam interesses políticos e/ou comerciais pessoais, ONGs jamais deveriam aceitar ‘favores políticos’, são estas e outras que comprometem a visibilidade da causa LGBT. Outros generalizam e promovem ataques a ONGs e muitos mais tentam desmerecer ou banalizar a importância das Paradas ‘gays’, mas perguntamos a estes que tipo de (ou quanta) visibilidade teríamos sem as mesmas?

Tema da Parada Gay de São Paulo em 2010

São Paulo tem a maior Parada do Orgulho LGBT do mundo e o Brasil está anos luz atrás de outros países quanto aos direitos LGBTs (incluindo a Argentina, um Estado Confessional), mas isto não é desculpa para podar paradas, não é tornando as mesmas um movimento dito ‘sério’ lotada de ‘engomadinhos’, ‘gays limpinhos’ e ‘corretos’ que vamos avançar.

O movimento LGBT não tem que perder sua identidade para ser respeitado, não devemos sucumbir    à heteronormatividade pra sermos aceitos. Lutamos por igualdade de Direitos e não por uniformidade de comportamentos em relação a héteros ou demais manifestações políticas.

O que falta à militância de muitos é perceber o que cada um pode fazer. Paradas, pressão política, apoiar ou participar de ONGs, votar priorizando políticos comprometidos com a causa, se assumir. Uma demonstração pública de afeto pode ser um ato político. O mais importante é ter uma constância de ações, cabe a cada um fazer sua parte e lutar pela ‘nossa identidade’, e não ataca-la. Caso contrário política será sempre entendida como uma questão de fé e ficaremos nas mãos dos avanços lentos, porém bem vindos do Judiciário.

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