Direitos humanos: um(a) Brasil(ia) de contrastes

 

Brasília é a capital gloriosa do país! E quem já foi a Brasília, que já pisou no solo da Rodoviária do Plano Piloto, lugar onde, no projeto de original de Lúcio Costa, seria o local central, o ponto de agregação da “Cidade Avião” e das Cidades Satélite, tem muito a refletir sobre alguns pontos.

O Primeiro, e nem precisa ser arquiteto ou engenheiro, ou mesmo pensar muito, é sobre a maravilha que é a construção daquele local, digo, em geral, a construção em si. É o que mais me fascina a princípio e mesmo com todo o resto da reflexão sempre me fascinará! Brasília foi feita pra ser grande, pra ser forte, pra ser gigante e ser centro de um país que tem dimensões de continente. Sei que tudo isso que falei já é clichê, mas é também real! Brasília é, sem dúvida alguma, uma das maiores construções e realizações desse país, e sem ufanismos desmedidos à nação.

Nessas fotos que se seguem é demonstrada ainda essa construção. A rodoviária, para os acostumados com as das outras cidades, com prédios tradicionais, quase não é vista, mas se esconde sob esses dois “viadutos” que aparecem nas fotografias.

    Não obstante termos o Congresso ao fundo, o segundo, e mais importante ponto a ser refletido, é sobre o que está oculto sob esses dois “viadutos” que escondem a Rodoviária do Plano Piloto. A Rodoviária é o quintal dos três poderes, mas mesmo a Rodoviária sendo vista do Congresso e do Congresso se vendo a Rodoviária, o local que deveria ser a integração para a população é esquecido. Um ponto imagético disso é a escada rolante. Sim, as doze escadas rolantes da rodoviária que nem sempre funcionam, ou funcionam de maneira precária, como mostrado no vídeo da reportagem no G1.

                Como se não bastasse, encontramos vídeos como este na rede:

O vídeo mostra a briga de duas “noiadas” na Rodoviária. Isso é algo diário que acontece. Há pessoas bêbadas e drogadas na Rodoviária, pessoas que vivem lá, que vendem bebidas e coisas de maneira ilegal e tem que correr da autoridade quando ela faz uma batida policial. A sociedade cria o fato social que é o estar jogado à margem e depois, tendo por representação a polícia, agride essa mesma população que marginalizou.

Essas pessoas vivem assim isso porque não tem mais o que fazer de sua vida. E diante dos olhos dos três poderes os Direitos Humanos são violados e jogados por terra. Há imagens fortes e gritantes, como as seguintes, que mostram mendigos que moram na Rodoviária ou menores que cheiram cola abrigados pelo anonimato que a sua condição financeira e social proporciona.

 

E essa é a imagem exata do que o Executivo e os outros poderes desse e de todos os tempos faz. Em Brasília, na sua construção, o ser humano não teve valor. O trabalho da professora Nair Bicalho de Souza, sobre o massacre, na construção da cidade, da Pacheco Fernandes Dantas, em 1959, reflete muito bem o que foi participar da construção dessa cidade.

Brasília, por ser capital, termina sendo uma imagem do restante da nação. No Brasil todos os Direitos Humanos são violados desde sempre: Exploração indígena, escravidão negra, perseguições na ditadura, guerrilha do Araguaia, massacre dos Carajás, Candelária, má distribuição de renda que leva a população a toda sorte de meios para conseguir sobreviver, só para citar alguns dos escândalos do país.

Mas não somente no escândalo estão negados direitos fundamentais à população oprimida, seja ela LGBT, negra, indígena, mulher, pessoa com deficiência… No dia a dia, nas leis não aprovadas, nas concessões a grupos opressores: nisso tudo está o verdadeiro escândalo. E mais que na Rodoviária de Brasília que tem escadas rolantes que não funcionam na maior parte do tempo, os maiores e verdadeiros escândalos se encontram nos corredores da Câmara e do Senado, onde os poderes estão instituídos, mas, muitas das vezes, não funcionam também em prol da população; está no Palácio do Planalto, que, sede do poder Executivo, até agora, não teve atitudes concretas e eficazes em relação aos direitos LGBT. O grande escândalo de Brasília está na Sede dos Poderes, não na Rodoviária dos anônimos; não está nesse governo, mas está desde sempre, desde que o Brasil se tornou Brasil, República das Bananas. E agora se vê um governo que vende os Direitos Humanos por apoio religioso, um Brasil Teocrata, uma vergonha para o mundo, um escândalo de Direitos Humanos.

O Brasil, grande, da grande Brasília, o país continente das grandes construções, precisa avançar enormemente para chegar aos pés do que poderia ser ao cuidar de seu povo, da população oprimida, dos que são anônimos. É preciso que vozes se unam ao coro, muitas vezes mirrado, formado no Congresso por Jean Wyllis, Manuela D’Ávila, Cristóvam Buarque, Marinor Brito e tantos que lutam pelos Direitos Humanos. Pela população que pega ônibus todos os dias na Rodoviária de Brasília, por não ter dinheiro para comprar um carro e afogar ainda mais o trânsito da Capital Federal, sinais de que o transporte público não funciona adequadamente, que o governa não cuida, que é necessário pensar mais no povo, nas pessoas e na sua dignidade.

Enquanto isso ocorre como expresso na poesia do Nicolas Behr:

o plano

pilatos

lava as mãos

e a sujeira

vai toda

pro paranoá

E, na Terra dos Tupinikins toda, não só em Brasília, a vida, os Direitos Humanos, são levados aos trancos e barrancos. E a população é esquecida.

Mas o Brasileiro samba, feliz.

Emmanuel Rodrigues

10 de dezembro de 2011

Aniversário da Declaração Universal de Direitos Humanos