Dilma; Presidenta dos outros, não dos gays

Por All Moon

Estamos caminhando para o fim do primeiro ano do primeiro mandato da primeira mulher a chefiar os destinos político-econômicos do Brasil. Ainda “surfando” na onda de popularidade deixada por seu antecessor, Dilma Rousseff chega ao fim do seu primeiro ano como Presidenta da República sem maiores arranhões em sua popularidade, a despeito das inúmeras denúncias com relação a vários de seus ministérios e que já derrubou uma série de Ministros e de funcionários dos chamados escalões intermediários.Lembro-me de que, no dia 1º de janeiro deste ano, assisti, comovido, ao discurso daquela corajosa militante de esquerda que, alçada pelo povo ao posto de comando do Poder Executivo da União, chorava ao dizer que seria, doravante, “Presidenta de todos os brasileiros”, um desfecho dos sonhos para quem, em sua juventude, foi barbaramente torturada pela ala mais reacionária e truculenta da sociedade brasileiraEntretanto, é com extrema amargura e indignação que afirmo categoricamente que Dilma não se tornou presidenta de todos os brasileiros. Esqueceu-se dos homossexuais, dos bissexuais, dos transexuais e das travestis.

É claro que Dilma, já na campanha, dava sinais de que não seria uma aliada em nossas demandas, na medida em que acabou assinando infames cartas de compromissos com os maiores patrocinadores da homofobia no Brasil, os fundamentalistas.

Porém, diante da falta de ética de José Serra (que prometeu vetar o PLC 122, que pretende criminalizar a homofobia), da inconsistência do discurso de Marina Silva e da lamentabilíssima impossibilidade de eleição de Plínio Arruda Sampaio, o único presidenciável a levantar a bandeira contra a discriminação em suas manifestações de campanha; pareceu-nos que a melhor opção seria confiar que Dilma, uma vez eleita, honraria a sua história enquanto militante e daria a melhor resposta às forças conservadoras do Brasil.O golpe a tal pensamento viria no 5º mês de mandato (exatamente no mês em que comemoramos o reconhecimento da constitucionalidade da união estável homoafetiva, em um histórico julgamento no STF): Dilma Rousseff, cedendo às chantagens dos fundamentalistas canalhas, veta um instrumento que seria crucial para combater a homofobia nas escolas, o Kit Anti-Homofobia.Soma-se a tal ato de homofobia o agravante fato de a “nossa” Presidente, ao expor os seus “motivos de veto” ao Kit, referir-se à orientação sexual como uma “opção que não poderia ser promovida pelo governo”. Em um só ato, covardia e estupidez.

O que se viu a partir deste episódio foi o aumento de tom dos homofóbicos, que, ressentidos com a nossa retumbante vitória no Supremo Tribunal Federal, passaram a pressionar de todas as formas para que a cidadania LGBT fosse atingida. Dentre tais medidas de desespero, merecem destaque a proposta de plebiscito para definir os rumos do casamento civil igualitário (medida eivada de inconstitucionalidade) e a tentativa de criação do “Dia do Orgulho Hétero“, em São Paulo (que, por razões de constrangimento, não merece sequer comentários).E onde esteve a “nossa” Presidenta durante todo este tempo? O que fez para aplacar a sanha homofóbica que ganhou vulto neste ano? Absolutamente nada. O máximo que fez foi mandar algum subalterno liberar verba para custear as viagens e os banquetes das inúmeras conferências que nada propõem e nada revelam além do fato de que alguns militantes, lamentavelmente, vendem-se por muito pouco.A título de comparação, o Presidente dos EUA, que enfrenta uma situação política e econômica muito mais delicada do que Dilma, não se furtou a sair em defesa dos cidadãos gays norte-americanos. Ao contrário da “nossa” Presidente, Obama não pensou nos votos que poderia perder, no apoio político que poderia deixar de amealhar ou na possibilidade de perder a reeleição no próximo pleito presidencial (que promete ser terrivelmente disputado). Apenas cumpriu com a sua missão constitucional: promover a cidadania de TODOS os cidadãos, lançando mão de campanhas contra a discriminação.

Em terras tupiniquins, Dilma não só não deu uma palavra contra a homofobia como também sequer esboçou estabelecer qualquer política pública que contemplasse verdadeiramente a população LGBT brasileira. E em um debate tão importante como o do estabelecimento de uma legislação protetiva, a Suprema Mandatária da nação conseguiu ser tão importante quanto um cubo de gelo em uma noite fria de inverno.E para encerrar o ano com “chave de ouro”, a “nossa” Presidenta, ao discursar em um evento sobre Direitos Humanos, disse que somos um país “tolerante”, “respeitoso”, voltando a proferir o odioso termo “opção sexual”. Ela só não conseguiu explicar como em um país “respeitoso” com relação aos LGBT’s é assassinado uma pessoa por homofobia a cada 36 horas. Magno Malta (aquele Senador que tem fixação por ambulâncias e por comparar homossexualidade à pedofilia) não seria capaz de um ato mais desrespeitoso.O primeiro ano do governo Dilma chega ao fim com um sabor amargo para os homossexuais. Para a presidenta, valemos menos porque somos minoria. Não somos cidadãos de verdade, porque não temos o mesmo poder de barganha de outros grupos sociais. Trata-se de uma gestora inequivocamente ignorante e ardilosamente omissa em se tratando dos direitos dos homossexuais. É por isso que, para mim, Dilma Rousseff é a “Presidenta dos outros”, não a Presidenta dos gays. E se não é Presidenta dos gays, não é Presidente de todos os brasileiros.

Por fim, enquanto vejo Líderes Políticos em todo o Mundo saindo em defesa dos gays, sequer consigo consigo lembrar qual foi a última vez que a “minha” Presidente proferiu publicamente a expressão “respeito aos homossexuais”. PT saudações!