Entenda a estratégia para derrubar o programa “Escola Sem Homofobia”.

Por Karla Joyce

Quem acompanhou meu primeiro texto Digo NÃO ao “kit gay” e o desenrolar da história viu que a discussão em torno do kit anti-homofobia, integrante do programa Escola Sem Homofobia, tomou proporções inimagináveis, ao ponto de se criar um clima de histeria coletiva em torno do (pouco) que se sabe do material. Lideranças e parlamentares ditas “cristãs” se aproveitaram da situação para, mais uma vez, ludibriar a população a respeito do kit.

Tem quase um mês e meio que o kit foi suspenso pela Presidente Dilma Rousseff e esperei os efeitos da decisão para poder escrever este novo texto. Foi o melhor momento, pois vemos que as manipulações e mentiras continuam. Precisamos desmascarar todo o esquema imposto para desmoralizar e difamar o kit, para que possamos lutar contra estas vozes que usam da falta de conhecimento da população para jogá-la contra os LGBT’s.

O efeito Palocci:

Não é de agora que Palocci se vê envolvido em situações que levantem suspeitas sobre sua conduta política. E, em se tratando de política, os efeitos de uma crise (sendo ela verídica ou boato) podem ser devastadores para o Governo. Não vou discutir se Palocci é ou não é inocente do caso de enriquecimento ilícito. O ponto é saber como tal situação foi usada em nosso desfavor.

Quem acompanha a sessão de política dos jornais[1] sabe o cenário do nosso Governo. Quem acompanha atentamente sabia que não era qualquer político que tinha fácil acesso ao Palocci . Muito menos à Dilma e seu alto escalão equipe. Isto gerou descontentamento entre vários políticos, principalmente os da bancada governista e do PT, como podem conferir no IG e no Estadão.

Sabemos também que Dilma foi eleita com uma base governista bem diversa, contendo vários partidos de atitudes e ideologias conflitantes. Uma vez que um grupo tão grande tenha sido composto, é difícil conciliar e atender tantos interesses envolvidos. Parte da base aliada começou a se “rebelar” para que seus anseios fossem atendidos. Eis que a rebelião torna-se maior quando surge uma denúncia de que Antônio Palocci aumentou em 20 vezes o tamanho do seu patrimônio prestando consultorias para empresas que fazem/faziam negócios com o Governo. A pressão por uma explicação e a “rebeldia” da base governista tornam-se maiores.  Até Lula foi convocado para tentar remediar a situação de descontentamento.

Porém, um grupo de parlamentares (da oposição e da base governista) apresentaria um requerimento pedindo para se instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito de investigação do novo caso Palocci. Aproveitando-se desta situação, a bancada evangélica anuncia, no dia 24/05, que iria obstruir (atrapalhar a votação) de projetos, trabalhar pela convocação de Palocci para se explicar na Câmara e pela abertura de CPI caso o kit anti-homofobia seguisse adiante . Eis que na manhã do dia seguinte, como num passe de mágica, a bancada evangélica é convocada para uma reunião na Presidência da República. A fala de Anthony Garotinho comprova tamanha rapidez para reunião:

Sra. Presidente, nós havíamos apresentado este requerimento em comum acordo com os companheiros irmãos da bancada evangélica, da bancada católica e da bancada da família nesta Casa, em função dos episódios lamentáveis ocorridos na semana passada envolvendo o Ministro da Educação, Fernando Haddad. Hoje pela manhã nós recebemos um telefonema do Ministro Gilberto Carvalho, que convocou a Frente Parlamentar Evangélica, representada pelo Deputado João Campos, a Frente Parlamentar Católica, representada pelo Deputado Eros Biondini, e a Frente Parlamentar da Família, pelo Deputado Roberto de Lucena. Estivemos até agora, há poucos instantes, no Palácio do Planalto, em reunião.

Fonte: Câmara dos Deputados

Houve uma reunião entre representantes da Bancada Religiosa com Gilberto Carvalho, Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, e Dilma. Um material foi apresentado à Presidente. O resultado infeliz já é de conhecimento: o kit de combate à homofobia foi suspenso.  Segundo Dilma, “O Governo não faz propaganda de ‘opção sexual’ (sic)” e toda matéria que versar sobre os “costumes” irá passar pelo crivo da Presidência da República.

Mas, esperem…  Não falei que o acesso à Dilma e sua equipe de alto escalão era muito difícil, que nem mesmo os parlamentares aliados não estavam conseguindo um acesso tão facilitado? Ora, por que a bancada evangélica conseguiu ser chamada em tempo recorde para uma reunião? Outra questão: durante entrevista coletiva, Dilma afirma que não viu todo conteúdo do kit. Por que suspendeu o material por completo?  No meu ver, foi para, nada mais nada menos, blindar Antônio Palocci e qualquer tentativa de investigação que gerasse uma crise dentro da cúpula do Governo.

Sabemos que isto gerou uma onda de insatisfação da militância LGBT, comunidade LGBT e daqueles que tem o bom senso de ver que a bancada evangélica fez uma chantagem. Trocaram Palocci e a suspeita de enriquecimento ilícito pelos direitos e a cidadania LGBT. Contudo, toda blindagem não deu muito certo, pois Palocci foi “demitido” dias depois.

Além de todo o retrocesso que a suspensão do kit representa, podemos tirar dois fatos positivos (sim, positivos) disto:

1. Mais informações sobre o kit começaram a aparecer;

2. As mentiras usadas por Bolsonaro e a bancada evangélica vieram à tona. Vamos tratar destes dois pontos para esclarecer o porquê da revolta dos LGBT’s em relação a este ato da Presidente.

O kit era mais do que pensávamos:

O que causa espanto é até agora o Ministério da Educação não ter feito uma entrevista coletiva ou emitido uma nota de esclarecimento a respeito das intenções do programa Escola Sem Homofobia. O que sabemos são informações vindas de entrevistas dadas pelo Ministro Fernando Haddad e deputados.  Por falar nela, vamos começar a análise pela entrevista do Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) dada ao Programa De Frente com Gabi, no SBT. Vejam a partir dos 3min25seg:

httpv://www.youtube.com/watch?v=mQ_tvv3PNk8&feature=related

O deputado faz alguns apontamentos feitos na Audiência Pública “Escola sem Homofobia” realizada no Senado Federal em novembro de 2010 e que originou no oportunismo de Bolsonaro:

  1. O projeto foi precedido de uma pesquisa que diagnosticou bullying homofóbico nas escolas. O material é destinado ao Ensino Médio e seria destinado a professores/direção, nunca aos alunos.
  2. O kit não iria ser distribuído a todas as escolas públicas do Ensino Médio. Sua distribuição seria para escolas que trabalhassem com o combate ao bullying, cerca de 6 mil do total de 20 mil.
  3. A distribuição do kit não era obrigatória e compulsória: viria a partir da escola que solicitasse o material. Ou seja, feito o pedido, o MEC enviaria o material e um técnico para explanar como o seu uso deveria ser feito.
  4. A Unesco, o Conselho Federal de Psicologia e o Conselho de Classificação Indicativa se posicionaram a favor do kit e o classificaram como adequado.
  5. Jean Wyllys fala que a ala reacionária da Câmara apresentou um material diferente do “Escola Sem Homofobia”. Usaram material do programa de Redução de Danos entre travestis que se prostituem e usuários de drogas injetáveis, afirmando que este era o kit.

Outras informações sobre o kit passaram a ser de conhecimento da mídia vindas de declarações de Helena Franco, coordenadora do “Escola Sem Homofobia” , acesso aos cadernos do kit , que o projeto ainda não havia sido aprovado pelo MEC e que o Ministério da Saúde em nada participou do processo. Outras informações sobre o kit podem ser vistas no site da Eccos – Comunicação em Sexualidade. Entretanto, o material completo do kit não está disponível.

Tamanha foi a besteira que Dilma fez que grupos da mídia como Globo e Folha passaram a não mais tratar o kit como “kit-gay” mas com seu nome apropriado: (kit de combate à homofobia ou kit anti-homofobia) e aproveitaram para alfinetar mais a Presidente.

Continua na Página 2

Como se dá a aprovação de um material do MEC?