O deputado Federal Jair Bolsonaro, do RJ, membro do Partido Progressista (PP), é figura polêmica conhecida por todos.

Do alto de seu histrionismo paranóico da extrema direita brasileira, ele já se manifestou a favor da tortura, pena de morte, fuzilamento do ex-presidente FHC, redução da maioridade penal, das palmadas para educação de filhos, protagonizou agressão física e verbal contra a então deputada Maria do Rosário e um bate-boca com um cacique em audiência pública sobre a demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, dentre outros exemplos.

O último episódio polêmico se deu em dia 28 de março, no quadro “O povo quer saber” (aos 3’40”), um quadro do programa CQC (Band), o deputado meteu-se em maus lençóis.

A cantora Preta Gil indagou sobre como Bolsonaro reagiria se um dos seus filhos se apaixonasse por uma mulher negra, ao que ele respondeu: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu“.

Poder-se-ia pensar em ato falho da parte dele (hipótese remota, mas não improvável) ou, apoiando-se numa mal interpretada fala do apresentador Marcelo Tas, se enganou quanto à pergunta[1]; disse pensar que esta dizia respeito a seu filho  namorar um gay. Os filhos saíram em defesa do pai. Após intenso debate entre defensores e opositores de Bolsonaro, ontem, dia 04 de abril, em nova entrevista ao CQC para esclarecer o episódio anterior, o deputado fez uma emenda pior que o soneto (este, que já era de todo ruim).

Em seu favor, mostra a foto de um cunhado negro, como se não fosse possível existir racismo num caso desses, como se não existisse mulher machista, negro racista em relação a negro, LGBT homofóbico, por mais paradoxal que seja. No mais, afirmou: “Quero crer que não entendi a pergunta” ou então os produtores teriam manipulado as questões.

Com os vídeos sem cortes mostrados pelo CQC, ficou comprovado que não houve qualquer manipulação das questões, restando assim a pura e titubeante “crença” (desesperada?) do deputado em não ter entendido a pergunta, mas não deu quaisquer sinais de dúvida no vídeo.

No mais, o deputado gosta de usar o argumento de que está no exercício de seu direito à liberdade de expressão. Sem dúvida o deputado Bolsonaro o detém, mas há que obedecer os limites legais.

A Constituição de 1988 definiu o crime de racismo como inafiançável e imprescritível.

Assim, independentemente de, na entrevista, ser o deputado ou o cidadão Jair Bolsonaro falando, a imunidade parlamentar, em vista desse tratamento severo dado pela Constituição e do caso Ellwanger, a imunidade parlamentar o protegeria de forma tão absoluta, considerando o grave crime de racismo como simples “crime de opinião”? Entendo que não, do contrário seria justificar uma imunidade que não conhece qualquer limite e, por isso mesmo, incompatível com o regime democrático; a conduta do deputado, em tese, se enquadraria no art. 20 da Lei Anti-racismo. O Supremo Tribunal Federal nunca enfrentou a questão específica “imunidade parlamentar versus crime de racismo” e, se o caso fosse levado até essa corte, teríamos um julgamento de grande importância histórica.

O pitoresco em viúvas do regime militar, a exemplo do dep. Jair Bolsonaro, é que vivem num mundo fantasioso, onde os fatos históricos nada significam. Questionado, na mesma entrevista do dia 28, sobre o que sentia saudade da “ditadura”, ele respondeu:  “Do respeito, da família, da segurança e da ordem pública e das autoridades que exerciam autoridade sem enriquecer.

Sem entrar no mérito de a que custo – em termos de homicídios, execuções sumárias, tortura, desaparecimentos forçados, uma vergonhosa lei de (auto)anistia – se deu a tal “segurança” e “ordem pública”, trago aqui uma bombástica declaração do general Geisel, uma “pessoa séria”, nas palavras do próprio entrevistado, que desmistifica a tão famosa “incorruptibilidade” dos militares na época. Indagado pelo almirante Faria Lima sobre se já era tempo de iniciar a abertura, Geisel respondeu: “É. Porque a corrupção nas Forças Armadas está tão grande que a única solução para o Brasil é abertura.” [2]

Embora tanto fale em “disciplina”, “moral”, valores estes aprendidos no Exército, Bolsonaro não passou de um militar insubordinado que se valeu de amizade com ministro do Superior Tribunal Militar para ser absolvido de graves acusações, segundo conta o ex-ministro Jarbas Passarinho.

Na Câmara dos Deputados, defendendo-se a respeito da polêmica entrevista disparou: “Com que moral vão me cassar aqui neste Congresso?”, mas, segundo dados da ONG “Transparência Brasil”, em 04 anos (de 2006 a 2010), o deputado Jair Bolsonaro – num passe de mágica típico do jogo político? – duplicou sua renda.

Deixando de lado as mentiras em sua militância anti-direitos LGBT, trago mais uma incongruência do polêmico deputado.

Em discussão sobre a chamada Lei da palmada – numa incrível renitência em conseguir associar absolutamente tudo de negativo aos “promíscuos” LGBT’s – declarou o deputado:

O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem.

Bem, de um lado o ranço de empirismo anetódico recheado muito senso comum sobre causas da homossexualidade é marca das declarações homofóbicas do deputado (seja por ausência do pai ou por falta de surra, ou, ainda, por convivência com LGBT’s desde cedo), de outro, é de estranhar essa defesa da palmada – um eufemismo pra violência física, maus tratos – como medida pedagógica, quando em entrevista no ano de 2000 ele assim se pronunciou:

Terra – Seus colegas de Congresso o consideram uma pessoa truculenta. Como o senhor é em casa?

Nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la várias vezes. Também nunca dei um tapa num filho. Gosto de chamar para conversar, contar piadas.

(…) Terra – Seu pai era agressivo em casa?
Eu não conversava com ele (…) até os 28 anos de idade. Ele bebia descaradamente e brigava muito em casa, com minha mãe e os filhos. Mas nunca bateu em filho. Um dia constatei que não iria mudá-lo. Resolvi pagar uma pinga para ele. Nos tornamos grandes amigos.

Na mais absoluta boa-fé, presumimos que o deputado criou seus filhos muito bem, foi um pai presente, exemplar, e que seus filhos hoje fazem dele um pai muito orgulhoso, afinal nenhum dos dois – até onde se sabe – é gay, promíscuo, pelo contrário partilham dos mesmos valores e seguem as ordens do pai como carneirinhos. Além dessa declaração, o filho e vereador Carlos Bolsonaro revelou que, de fato, nunca levou palmadas do pai. Contudo, Bolsonaro admitiu que usaria de tortura contra os próprios filhos (aquiaqui) se necessário fosse, sem sequer hesitar, mesmo com tantos casos de tortura e maus tratos contra crianças que tanto revoltam a opinião pública (Leiam: Procuradora aposentada que torturou criança pode ser presa e Garota de 14 anos que sofreu abuso e foi torturada pede a prisão da mãe )

Ora, deputado, permita-me a pergunta: se seus filhos foram criados sem a necessidade de palmadas, castigos físicos e são “homens de bem”, por que essa hipócrita defesa da palmada como medida pedagógica na educação familiar? É a tortura um método corretivo aplicável aos próprios filhos, como por duas vezes o senhor afirmou?

O deputado foi eleito com mais de 120 mil votos. Será que todos os seus eleitores compartilham dessa visão ou muitos votam nele pela atuação em prol dos militares – uma atuação, ao menos quanto a um fato, de duvidosa moralidade? Difícil responder. O discurso de ódio deus seus frutos: a invasão do site da cantora Preta Gil e do site da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT por crackers.

Um resumo da hipocrisia dessa figura: usa da mesma liberdade de expressão de nosso regime democrático para louvar os “serviços prestados” pelos militares no regime militar, que, vejam só, cerceava tal liberdade a quem lhe contestasse; debocha das vítimas de todos os crimes cometidos por militares durante a “ditadura”, bem como da dor dos familiares destes; debocha dos pais e mães de LGBT’s chamando-os de ausentes, péssimos pais porque seus filhos “viraram” LGBT’s; debocha de nossa democracia, conquistada a duras penas.

Ao eleitorado do Rio de Janeiro, nas eleições de 2014 e caso ele venha a se candidatar, cabe a importante decisão de conferir ou não a Jair Bolsonaro, em vista de tudo o que foi dito, o papel de representante do povo carioca.

Para concluir, a triste figura do moralismo hipócrita do deputado lembra muito uma outra descrita por Nietzsche:

(…) consideremos quão ingênuo é dizer: “o homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de forma — e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.” Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “ecce homo!” [eis o homem]. (grifou-se)


* Por Thiago “Fiago” Viana (@Thiago_Fiago)

[1] Hipótese reforçada se atentarmos para a pergunta anterior à de Preta Gil foi esta (aos 3’36”):   “Quantos chefes negros você já teve?”, ao que ele respondeu sem hesitar: “Eu nem conto. Não dou bola pra isso”. Digo mal interpretada porque o próprio Marcelo Tas, posteriormente, esclareceu o equívoco, aqui, aos 10’38”.

[2] Ronaldo Costa e Couto (1999, págs. 150 a 151), no fabuloso “História indiscreta da ditadura e da abertura –Brasil: 1964-1985”  discorre como se dava a corrupção entranhada nas Forças Armadas: “É fundamental levar em conta o apreço e apego de Geisel à ordem e à hierarquia. A verdade é que o sistema militar havia perdido o controle sobre o aparelho de segurança e de informação. Era preciso reprimir a repressão, conter seus excessos, enquadrá-la na hierarquia e disciplina militar. Impor-lhe a cadeia de comando. Para ele, a revolução envelhecera, estava na contramão da história. Mais que isso: desfigurara-se, deteriorara-se. A censura, travando a fiscalização da imprensa, facilitava a corrupção, inclusive de militares e ex-militares. Era essa a avaliação de Geisel, segundo o almirante Faria Lima: “Ele se instalou lá naquele Palácio do antigo Ministério da Agricultura para trabalhar na organização do seu programa de governo. Na verdade, ele já estava se preparando há muito tempo. Ele me disse, naquela ocasião que ia fazer a abertura. E eu disse a ele: ‘O senhor acha que é a hora para fazer a abertura?’ Ele me respondeu: ‘É. Porque a corrupção nas Forças Armadas está tão grande, que a única solução para o Brasil é abertura.’” Por outro lado, a repressão política criara um poder militar paralelo, autônomo, enfraquecendo os comandos, prejudicando a hierarquia e a disciplina, ameaçando a ordem dentro das próprias Forças Armadas. A concentração excessiva de poder no governo, se por um lado significava força, por outro expunha o governante. E a tão temida ameaça comunista mostrava-se cada vez mais improvável, distante, descartada.”