Por Marcelo Gerald

Está rolando há mais de 24h uma discussão nas redes sociais, em que se comparam dados do Chile versus do Brasil. A discussão inicial era pautada na comparação da declaração do presidente de lá com as desastrosas ditas por Dilma aqui. Poderia ser um bom tema para repensarmos nossas políticas públicas públicas, mas como a maioria desses debates, o foco e objetivo maior se pauta em maquiar e justificar dados e atos oficiais.

A declaração do presidente chileno apoiando a lei contra  a homofobia no país disparou o alarme de “progressistas”. Como assim, o presidente de “direita” pode querer fazer mais por Direitos Humanos a LGBTs  que a nossa presidenta “progressista” que nada fez?

Se formos comparar o país vizinho com o nosso é realmente um soco no estômago. Dilma comete erros graves toda vez que fala sobre o assunto, tomou atitudes homofóbicas mais de uma vez, ao vetar políticas públicas, entre essas as educativas, que visavam combater a discriminação e o preconceito e as da saúde,  como a campanha de prevenção à AIDS voltada homossexuais.

Neste debate deveria ser analisado o que vem sendo feito nos dois países, no Chile há material de combate à homofobia já está nas escolas, no Brasil o material foi vetado pela presidenta da República.

A discussão nas redes sociais sobre o tema foi superficial, da mesma forma que acontece quando costumam dizer “votem no PT, senão o demo/tucano irá avançar”. Alguns afirmam que o presidente chileno não presta, claro ele precisa ser desqualificado afim de diminuir a importância do seu apoio no combate à discriminação. E notem não estou defendendo o presidente, aqui  o foco é apenas um de seus posicionamentos apenas.

Alguns tentam se refugiar nos números. Tentam maquiar os mortos pela violência homofóbica no Brasil, mas veja só no Chile mataram por motivação homofóbica 17 pessoas nos últimos NOVE anos!!  Sim eu disse nove anos, já no Brasil a média dos últimos anos está cada vez mais próxima de 300.

Alguns insistem que o Brasil é mais populoso que o Chile e é por isso que temos mais casos. Será?

População em 2008 versus assassinatos ao ano:

EUA: 303.824.646 média de assassinatos por homofobia: 25.

México: 108.700.891 média de mortos: 35.

Brasil: 190.755.799 habitantes. Média de mortos acima de 200. 251 assassinados em 2010, 272 em 2011 e 80 mortos no primeiro trimestre de 2012.

Chile 16.284.741.  17  mortos em nove anos.

Comparemos o Chile inteiro com dois Estados brasileiros:

Estado da Paraíba, Brasil, População próxima de 4 milhões de habitantes, 19 mortos em 2011

Estado da Bahia, Brasil, 14.080.654 de habitantes, 11 mortos somente no primeiro trimestre de 2012, 29 mortos em 2011.

Alguns tentaram alegar que o Chile é mais homofóbico, ou tão homofóbico quanto o Brasil, baseado na condenação em corte Internacional  em que o Chile foi punido por tirar o direito de uma juíza lésbica em adotar, mas há vários casos como este no Brasil. A diferença é que nunca fomos julgados por uma corte Internacional. Exemplos não faltam, apenas pra ilustrar, em 2005 o casal Toni Reis e David Harrad tentaram adotar, o juiz decidiu após dois anos, que o casal só poderia adotar meninas e acima de 10 anos. Casos assim, geralmente são solucionados apenas por quem pode recorrer na Justiça brasileira.

Já a transexual Roberta Góes não teve a mesma sorte perdeu a guarda de um bebê que cuidava há mais de um ano na Justiça de Rio Preto, interior de São Paulo. O destino do garoto foi um abrigo para menores.

Essas comparações nos levam a algum lugar? Não sei, mas a questão é o por que a declaração do presidente Piñera irritou tanto parte da militância governista.

Números e casos a parte, a discussão é rasa, muitas vezes baseada em achismos, se no Brasil matasse menos de 10 homossexuais por ano, ou que fosse apenas um precisaríamos de uma lei que combatesse esse crime de ódio. Ao invés disso o que temos é um governo completamente omisso e sua militância, que ao invés de cobrá-lo justifica seus erros.

As pessoas deveriam ter consciência que estamos falando de vidas humanas, de histórias interrompidas pelo ódio e não de dados estatísticos, mas se somente os números é que importam, nós perdemos e de lavada, ou ganhamos se olharmos pela ótica dos homofóbicos.

A Argentina e o Chile são bons exemplos, que nos mostram a dificuldade de fazer políticas públicas pró LGBT sem apoio do Executivo, na Argentina a presidenta apoiou o casamento igualitário e já existe lei que favorece a igualdade de gênero, No Chile a discussão caminha e  não vou ficar surpreso se avançarem mais que nós, já que por aqui a presidenta tem agido contra.

O Brasil comandado por Dilma retrocede em conquistas, mas há quem confunda avanços do Judiciário, como o reconhecimento da União Estável,  com medidas de Governo, com estes esse debate é inócuo.

Denunciar o país em cortes e organismos internacionais talvez seja a única forma de garantirmos o direito à vida e à igualdade entre LGBTs no Brasil. O veto de Dilma à campanha de prevenção à AIDS foi denunciado.

Há várias violações que precisam ser apuradas e com urgência.