Sobre a parada, a foto, e o discurso moralista

Por Carlos Gomes

Acompanhamos nos últimos anos uma onda conservadora ganhando força e disputando a sociedade, como exemplo disso temos a eleição presidencial passada, onde o debate se deu em torno de questões progressistas e contraditoriamente rechaçada por uma parcela conservadora da sociedade. Recentemente aconteceu a Parada do Orgulho LGBT do Acre, um fato me chamou a atenção, circula nas redes sociais uma foto, onde dois protagonistas simularam sexo oral, uma expressão infeliz e equivocada, foto essa que veio carregada de um discurso machista, patriarcal e falso moralista.
A parada do orgulho LGBT é um acontecimento anual, que está na agenda de vários Estados e Países, uma manifestação pacífica, que tem como proposta inicial uma discussão política, de lutas e resistências às opressões. A mudança dessa manifestação deve ser analisada no conjunto das transformações que vem sofrendo o movimento social, mudanças essas que não são oriundas só na organização social LGBT, mas também no movimento de mulheres, sindical, campesino, estudantil, entre outros.
Desqualificar um movimento a partir de uma expressão equivocada é, para mim, um golpe sorrateiro de setores da sociedade que se escondem num (pseudo) discurso moralista, ora, não vamos generalizar, não é isso que estou dizendo, que todas as pessoas que criticam a expressão infeliz são pseudo moralistas, mas o que digo é que a maioria dos discursos são esvaziados e sem coerência, um discurso pautado numa contradição, que não se sustenta num debate sério, centrado no que realmente o motiva.

O movimento LGBT assim como tantos outros vem sendo criminalizado, a parada LGBT é um evento político e de lutas, aos que só mencionam a foto equivocada, sugiro também que indaguem o tema da parada, as falas políticas que direcionavam o evento, a campanha de prevenção feita, as ONGs que estavam com bandeiras, palavras de ordem e toda uma proposta política de reconhecimento das diferenças e a necessidade de políticas públicas.

O pênis que causou a polêmica era de borracha

Resumir a parada, o evento a uma foto é reproduzir um discurso alienado, que não se sustenta quando comparado com outras grandes manifestações populares, mesmo que essas manifestações não tenham o viés político como o da Parada, o carnaval é uma festa, um grande evento que tudo pode, bundas falsas como acessório, seios e bundas de fora, mulheres e homens pelados, fantasias sexy, pênis como acessório da folia, na cavalgada existem os mesmos equívocos e em tantos outros grandes eventos, mas cadê a crítica a tudo isso, cadê o moralismo, os bons valores diante desses outros acontecimentos?

Diante dessa situação toda, tenho a certeza de que o movimento LGBT nas realizações da Parada e de muitas outras ações deve ser autônomo e independente, o papel do Estado é no fortalecimento da democracia, na consolidação e garantia de direitos através dos mecanismos como as políticas públicas, o movimento social passa por uma crise não dele, mas que o afeta diretamente, uma crise das formas de representação e de poder.

Com propriedade digo que a população LGBT foi e ainda é marginalizada, estigmatizada e excluída do âmbito do direito e da cidadania, e uma expressão infeliz e equivocada não pode direcionar toda uma população, essa hipocrisia social que nos coloca numa redoma, nos padroniza e estabelece qual o espaço que podemos ter e o reconhecimento diante das esferas de poder é uma afronta ao Estado Democrático de Direito. Essa sociedade da reprodução de valores, que reconhece o homossexual dentro da sua relação de exploração e opressão, mas que o nega como sujeito histórico e de direitos não é e nem nunca será um Estado progressista, que garante igualdade e que respeita as diferenças.

Por fim, quero registrar a hipocrisia política do Estado do Acre, que tem uma Assembleia Legislativa que deveria legislar para todos e todas, mas na verdade se apresenta como um espaço viciado com velhas práticas políticas, que se mascaram num falso moralismo e reforça o tensionamento nas relações sociais, que privilegia grupos, que atenta contra a Constituição Federal ao impor um Estado Teocrático (de negação e violação de direitos).

Carlos Gomes é assistente social, Suplente da Diretoria Executiva da ABGLT, acadêmico de jornalismo pela UFAC.